Estava lendo a introdução de um livro sobre veganismo, quando a história da autora me lembrou de algo que eu queria falar há muito tempo aqui no blog. De como os relacionamentos mudam porque nós mudamos. E não estou falando sobre relacionamentos afetivos não, qualquer um, até familiares. Muda a dinâmica, o engajamento...
Eu sou casada com o Edson, e posso assegurar que há sete anos atrás, quando iniciamos esse relacionamento, ele e eu éramos pessoas totalmente diferentes de quem somos hoje. A base continua a mesma, pois acho que caráter é algo inerente ao ser humano. Mas nós evoluímos e crescemos muito juntos. Nos ajustamos, não um ao outro, mas a nós mesmos. É que na realidade, o ser humano tende a contradições, e agir em desacordo com o que acredita é mais comum do que o que nos parece. E nesse processo de descobrir e corrigir falhas, que eu acredito ser um trabalho constante, nós nos ajudamos muito.
Há alguns meses eu comecei a sentir que nós não estávamos na mesma página, e o assunto era alimentação. Eu deixei de comer carne, mas ainda consumia derivados de leite e ovos, porém desejava transicionar para uma dieta livre de crueldade animal. E alguns conflitos aconteceram. Como é de se esperar, ele se preocupava com minha saúde. E tinha razão, como vegetariana eu me alimentava muito mal. Eu me garantia no consumo de ovos e queijo para qualquer refeição, ao ponto de não me importar com vegetais em geral. Comecei parando de comer ovos, e logo era queijo em todas as refeições. Eu estava triste, mal alimentada, e ainda não me sentia em paz com minha consciência. Foi quando comecei a pesquisar mais sobre veganismo, a conversar mais com ele a respeito, e a colocar algumas receitas em prática. Tudo mudou a partir daí. Edson começou a engajar com conteúdos desse tipo, e a estudar reduzir seu consumo de carnes e derivados de leite. Hoje já estamos há mais de um mês de quando tudo se iniciou, e ele ainda come ovos (daqui do sítio) e queijo que sua mãe sempre deu, e isso porque ainda não é fácil para nós, fazer queijo vegano. E também pelo receio da reação dos meus sogros com uma dieta mais restritiva do Edson. Até hoje eles não aceitam a minha. Nossas refeições nunca foram tão ricas, variadas e deliciosas, sem contar como são muito mais saudáveis do o que costumávamos comer antes. Quanto a consumo, nós tentamos comprar de acordo com o que acreditamos. Cometendo alguns erros no caminho, mas agora eu não me sinto mais angustiada, porque o tenho ao meu lado, pensando e vivendo de acordo com o que sentimos que é a forma certa de viver, estamos fazendo o nosso melhor.
A resistência inicial era mais por desconhecimento que por filosofias diferentes. E sendo assim, tudo foi resolvido com um pouco de educação a respeito. Eu não impus nada a ele, como não posso fazer a nenhuma outra pessoa. O que posso fazer é despertar interesse. Então, apenas disse minhas razões, mostrei alternativas, e ele concordou comigo. Mas eu sei que isso é um privilégio, e eu sou muito grata e feliz por tê-lo sempre ao meu lado descobrindo coisas, e tentando sermos versões melhores de nós mesmos juntos.
Acredito que seja nesse caminho que algumas pessoas se afastam, quando crescem separadas, de maneira individual, e quando há resistência e falta de interesse no processo do outro. Nós somos uma "metamorfose ambulante". Quem está ao nosso lado vai nos ver mudar, seja para melhor ou pior, julgado a partir da vivência e crescimento do outro. Para continuar relacionamentos em harmonia, nós acabamos sempre comparando nossas crenças ao do outro. Algumas questões passam, mesmo com diferenças irreconciliáveis, afinal ninguém vai terminar com os pais. Mas em geral, é assim que amigos se afastam, relacionamentos familiares são restritos a obrigações, e casais se separam. Lógico que outro zilhão de elementos podem fazer parte de decisões assim, relações humanas são muito complexas! A gente se apaixona todos os dias pela pessoa ao nosso lado. Por atos, pensamentos, cumplicidade... E se isso não acontece, vamos ficando mais distantes, e a cada dia fica mais difícil ouvir e ver o outro, e nos enxergar nele. Como conclusão posso dizer, não descuide de suas relações, e não descuide de si mesmo. Seja curioso, e se ama a pessoa, ao menos tente ouvir sobre suas paixões, e se não vai fazer mal a ninguém, experimenta. O pior que pode acontecer é você descobrir que seu lugar não é ao lado dessa pessoa. Já o melhor que pode acontecer, é você se apaixonar outra vez pela mesma pessoa.
P.s.: Se a sua, ou seu, ente querido está engajando em questões prejudiciais a outras pessoas, ou a ele mesmo, esteja atenta(o) e ao menos tente fazê-lo notar isso. Mas você não é a/o responsável por salvar ninguém. Para resolver um problema, primeiro a pessoa deve perceber e admitir que tem um. Não o abandone, mas ofereça apenas o que pode dar, sem que isso prejudique a si mesmo. Seja consciente de seus limites, e respeite-os.
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segunda-feira, 17 de junho de 2019
Crescendo
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terça-feira, 28 de maio de 2019
Presa em realidades alternativas
Hoje eu não tive um dia ruim. Tudo continua ok. Nada de particularmente errado ou ruim acontecendo no meu mundo, mas eu estava naquele lugar. Quando eu falo "estou naquele lugar" significa que não consigo me livrar de pensamentos ruins que vêm sem nenhum convite, e permanecem por pura teimosia. Em momentos assim você se sente incapaz em muitos sentidos. Mas em geral, incapaz de ser feliz. Viver dá muito trabalho! Quem me conhece sabe que não tenho porque ter esses pensamentos. Minha vida é muito boa, e a vida e as pessoas nela, sempre foram muito gentis comigo. Eu não sofri muito enquanto crescia. A única coisa que posso realmente "reclamar" que sofri foi um péssimo relacionamento com minha mãe, que durou enquanto ela viveu, e claro, como sou mulher, assédio desde que me entendo como gente.
Já tentei inúmeras vezes criar fórmulas pra sair desse estado mental. Anotei até um checklist para dias assim. Que nunca mais olhei desde que escrevi. O fato é que em dias como hoje, eu não lembro, nem chego a pensar em condutas que possam me tirar dessa zona sombria. Ao menos é o que sempre acontece comigo. Eu esqueço completamente de todas as minhas resoluções para uma vida mais plena. E se encontro qualquer dificuldade nesse dia, por menor que seja, a vontade é de deitar no chão e esquecer como respirar. É até estúpido dizer isso pra alguém que talvez nunca tenha passado por isso. E que, pior, tenha reais dificuldades em sua vida, e leve a vida normalmente, como um ser humano médio deveria ser. Mas todos temos as nossas lutas. E a gente não pode esquecer disso.
Eu costumava pensar que só eu tinha esses sentimentos. Quando a gente sofre, sempre se coloca num estado de solidão. Mas se a gente olhar ao nosso redor, vai notar muita gente lutando as mesmas batalhas sozinhos. Eu tenho vários problemas com meu ego. Um deles é achar que posso consertar o mundo, quando não consigo nem cuidar de mim mesma. Quando eu me nego, ou não consigo mesmo, ajudar alguém que amo, ou qualquer pessoa do qual o sofrimento eu tenho conhecimento. Ou pior ainda, quando penso, muito egocentricamente, que de qualquer forma incomodei, desapontei ou prejudiquei alguém. Bem, é nesse momento que é mais fácil cair nessa espiral. E não precisa ser nada grave.
A parte positiva de envelhecer, e já ter passado por isso tantas vezes, é saber que passa. Tudo passa, até momentos ruins. Na perspectiva de alguém que já viveu um pouquinho, eu sei que nem tudo tem a importância que a gente costuma dar. E que com o tempo, outras coisas vão importar muito mais. Aquilo com o qual a gente se preocupa hoje, não será nem uma fração de memória em nossa mente no futuro. Olhar pra trás é se compadecer com o eu do passado e pensar em todos os momentos que deixamos de viver porque estávamos pré-ocupados. Minha esperança é aplicar esse conhecimento em meu benefício sempre que possível, sempre que eu consigo notar esses padrões, e me tirar dessas situações, cada vez mais rápido.
Não, eu não sou uma pessoa ruim, nem sem valor. Sim, eu posso ser feliz, e sim eu mereço amor! Você que estiver lendo isso, é tão merecedor de amor, como qualquer outro ser nesse planeta. Comece por você mesmo. Ame-se!
Já tentei inúmeras vezes criar fórmulas pra sair desse estado mental. Anotei até um checklist para dias assim. Que nunca mais olhei desde que escrevi. O fato é que em dias como hoje, eu não lembro, nem chego a pensar em condutas que possam me tirar dessa zona sombria. Ao menos é o que sempre acontece comigo. Eu esqueço completamente de todas as minhas resoluções para uma vida mais plena. E se encontro qualquer dificuldade nesse dia, por menor que seja, a vontade é de deitar no chão e esquecer como respirar. É até estúpido dizer isso pra alguém que talvez nunca tenha passado por isso. E que, pior, tenha reais dificuldades em sua vida, e leve a vida normalmente, como um ser humano médio deveria ser. Mas todos temos as nossas lutas. E a gente não pode esquecer disso.
Eu costumava pensar que só eu tinha esses sentimentos. Quando a gente sofre, sempre se coloca num estado de solidão. Mas se a gente olhar ao nosso redor, vai notar muita gente lutando as mesmas batalhas sozinhos. Eu tenho vários problemas com meu ego. Um deles é achar que posso consertar o mundo, quando não consigo nem cuidar de mim mesma. Quando eu me nego, ou não consigo mesmo, ajudar alguém que amo, ou qualquer pessoa do qual o sofrimento eu tenho conhecimento. Ou pior ainda, quando penso, muito egocentricamente, que de qualquer forma incomodei, desapontei ou prejudiquei alguém. Bem, é nesse momento que é mais fácil cair nessa espiral. E não precisa ser nada grave.
A parte positiva de envelhecer, e já ter passado por isso tantas vezes, é saber que passa. Tudo passa, até momentos ruins. Na perspectiva de alguém que já viveu um pouquinho, eu sei que nem tudo tem a importância que a gente costuma dar. E que com o tempo, outras coisas vão importar muito mais. Aquilo com o qual a gente se preocupa hoje, não será nem uma fração de memória em nossa mente no futuro. Olhar pra trás é se compadecer com o eu do passado e pensar em todos os momentos que deixamos de viver porque estávamos pré-ocupados. Minha esperança é aplicar esse conhecimento em meu benefício sempre que possível, sempre que eu consigo notar esses padrões, e me tirar dessas situações, cada vez mais rápido.
Não, eu não sou uma pessoa ruim, nem sem valor. Sim, eu posso ser feliz, e sim eu mereço amor! Você que estiver lendo isso, é tão merecedor de amor, como qualquer outro ser nesse planeta. Comece por você mesmo. Ame-se!
terça-feira, 19 de fevereiro de 2019
O ser humano em suspensão
Partindo do princípio de que não há verdade absoluta sob esse céu, eu estou aqui pra partilhar minhas recentes descobertas na área de autoconhecimento, e no entendimento do nosso papel no mundo, ou seja, do que é afinal ser humano. Digo de antemão que é só um arranhãozinho na superfície de algo muito profundo, e que ainda que eu vivesse mil anos estudando incessantemente, mesmo assim, não arriscaria dizer que finalmente conheço tudo a respeito desse assunto, ou mesmo que o que descobri é a verdade.
Até bem pouco tempo, como devem saber os que não estão me lendo pela primeira vez, ou os que me conhecem, eu me mantinha isolada do mundo, numa posição confortável de evitar até mesmo as redes sociais. Não me arrependo desse hiato de presença virtual, pois esse tempo longe das mídias sociais foi bastante importante para uma melhor perspectiva a respeito do que a internet, e os meios pelos quais interagimos dentro dela, significam. Me sentir uma outsider (alguém de fora) nessa conjuntura, me ajuda, por vezes, a ter uma visão mais prática e realista dessas ferramentas. Menos glamourosa ou demonizada.
Agora, já há um tempo usando, confesso que até abusando de tempos em tempos, desses meios de interação, até devido a resistência de me comunicar com as pessoas no mundo real. Noto nos outros o que pensava era farto em mim, e que era um defeito meu, o que me fazia completamente infeliz e sem esperança de um futuro mais otimista no horizonte. Boa parte de nós (ao menos na minha constatação, que pode estar enviesada, pode ser contaminada pelas bolhas sociais e/ou pela necessidade de me ver nos outros) sente um vazio. Muitos não sabemos o que realmente queremos na vida, e da vida. Quase todo mundo fantasia com fugas para uma existência completamente diferente da sua. Uma escapatória aos doces vícios aos quais nos habituamos, e que parece, não nos deixarão mais em paz. Estaríamos doentes como indivíduos ou como seres sociais?
Nos ocupamos admirando (podemos ler também: invejando) recortes de vidas, que estão perfeitamente emoldurados para nosso entretenimento, com intuitos muitas vezes escusos. Amamos ou odiamos pessoas baseados no que essas pessoas deixam que vejamos delas. Por isso tanta decepção, e pior, tanta amenização de questões problemáticas, dependendo de se quem está no holofote é uma celebridade ou algum fulano da vida. Nos preocupamos em estar sempre certos sobre questões atuais, e defendemos nossos pontos com unhas e dentes em detrimento de qualquer respeito ao direito do próximo de discordar da gente. E fazemos questão de não ouví-lo, gritando cada vez mais alto, e mostrando nossa 'superior capacidade de raciocínio lógico e retórica'. Assim, afastando qualquer possibilidade de entender o ponto do outro, e de conseguir ser ouvido. Já que o maior ponto de conflito têm sido a política (partidária ou não), falo para aqueles que não sabem ou esqueceram: política não consiste em vencer e impor sua vontade ao outro, e sim negociar e chegar a um meio-termo, comprometendo o desejo dos dois (ou mais) lados envolvidos nessa negociação. Compromisso, nesse caso, significa que todas as partes envolvidas sairão sem estar completamente satisfeitos, mas ninguém deixará de ser ouvido e atendido em algo do qual não abre mão. Então, o que você não abre mão? E o quanto isso é importante pra você a ponto de te afastar de alguém querido? Se sua resposta for movida por paixão, ou ódio, há de ter cuidado para não estar escolhendo lado errado, e ainda mais desagradável, as batalhas erradas.
Toda essa ocupação mental nos deixa exaustos. Por milhares de anos, os humanos viveram uma vida muito pacata. Mesmo as pessoas mais influentes e famosas, não conheciam mais de algumas dezenas de pessoas em sua existência. Não tinham tantos eventos acontecendo na sua vida, e no mundo (do qual tinham conhecimento) ao seu redor. Se ocupavam em cuidar, além de si, das pessoas que amavam, e do lugar onde viviam. Eu tenho trinta e um anos, e parte da minha vida foi assim. Mas a internet ampliou nossos horizontes, expandiu nossas possibilidades, de uma forma sem precedentes, e em questão de poucos anos. E isso é especialmente verdade num país como o Brasil, que o acesso a internet e aparelhos como smartphones, se tornou algo comum e mais facilitado recentemente. Nada disso é necessariamente ruim, dependendo do que fazemos com isso, e de como nos colocamos perante a esse infinito de informações e cenários possíveis de interação. Mas, toda mudança muito drástica do modo de viver, individual ou coletivo, como nesse caso, sem que tenhamos sido preparados para isso, pode ser muito danoso. As regras, costumes e etiquetas desse novo universo ainda estão sendo criadas, testadas, quebradas, e em tempo real. Algo inerente à sua própria natureza, camaleônica e subversiva. Aos poucos nos damos conta de que o mundo virtual é uma extensão desse, e não está à parte dele, portanto deve obedecer às mesmas regras éticas. Mas é esse viver tão acelerado, onde temos que estar prontos para emitir opinião instantânea, ou à ação imediata, sem parar pra investigar, meditar, digerir... Isso faz com que tenhamos a impressão que não temos tempo para nada. Quando perdemos tanto tempo com questões banais e desnecessárias, nos impedindo de olhar pra dentro, e de perceber o impacto que nossas vidas geram em outras vidas. Como nosso modo de viver determina o presente e futuro das pessoas que amamos e afeta o lugar em que vivemos.
A boa notícia, é que nós podemos ter um bom convívio com as pessoas, inclusive por meio da internet, e de forma utilitária, não vazia. Ao mesmo tempo que não precisamos nos orientar pela bússola do próximo. Ou seja, não precisamos ser tão rico, tão bonito, tão viajado, tão feliz, quanto o outro, nosso modelo, nos parece. Não há perfeição! E você não deveria estar lendo essa afirmação aqui para entender isso, é senso comum. Então por que continuar infeliz procurando por isso?
Busque o que é especial pra você, o que dá sentido a sua existência. Mas que nunca seja para agradar a terceiros. Que seja para que você sinta orgulho de si, mesmo que ninguém, além de você, saiba o que é, e conheça suas realizações. Essa motivação é a real! Sem barganhar por atenção. Sem se medir pela régua de outras pessoas, pois cada um tem a sua.
Por fim, maus hábitos são extremamente difíceis de serem combatidos, eu sei. Luto todos os dias contra os meus, perdendo miseravelmente quase sem notar. Por isso, penso que a estratégia mais válida, é introduzir bons hábitos, talvez até opostos aos seus maus hábitos, em sua rotina. Algo que acrescente à sua vida, ou de seus entes queridos, da sua comunidade. Se doe um pouco ou defenda algo em que acredita. Mas de forma a inspirar amor e esperança, nunca ódio e medo. Se para defender algo você precisa gerar ódio ou medo nas pessoas, ou a causa não é justa, ou você está fazendo do jeito errado.
*Esse texto será dividido em duas partes. Aqui apresento como que uma lista de sintomas num esboço rápido do que estamos vivenciando, além de formas de conviver com esses sintomas. E no próximo, pretendo investigar como chegamos a esse ponto, e o que podemos fazer para reverter esse quadro, e uma olhadinha na minha experiência e planos para melhorar.
Até bem pouco tempo, como devem saber os que não estão me lendo pela primeira vez, ou os que me conhecem, eu me mantinha isolada do mundo, numa posição confortável de evitar até mesmo as redes sociais. Não me arrependo desse hiato de presença virtual, pois esse tempo longe das mídias sociais foi bastante importante para uma melhor perspectiva a respeito do que a internet, e os meios pelos quais interagimos dentro dela, significam. Me sentir uma outsider (alguém de fora) nessa conjuntura, me ajuda, por vezes, a ter uma visão mais prática e realista dessas ferramentas. Menos glamourosa ou demonizada.
Agora, já há um tempo usando, confesso que até abusando de tempos em tempos, desses meios de interação, até devido a resistência de me comunicar com as pessoas no mundo real. Noto nos outros o que pensava era farto em mim, e que era um defeito meu, o que me fazia completamente infeliz e sem esperança de um futuro mais otimista no horizonte. Boa parte de nós (ao menos na minha constatação, que pode estar enviesada, pode ser contaminada pelas bolhas sociais e/ou pela necessidade de me ver nos outros) sente um vazio. Muitos não sabemos o que realmente queremos na vida, e da vida. Quase todo mundo fantasia com fugas para uma existência completamente diferente da sua. Uma escapatória aos doces vícios aos quais nos habituamos, e que parece, não nos deixarão mais em paz. Estaríamos doentes como indivíduos ou como seres sociais?
Nos ocupamos admirando (podemos ler também: invejando) recortes de vidas, que estão perfeitamente emoldurados para nosso entretenimento, com intuitos muitas vezes escusos. Amamos ou odiamos pessoas baseados no que essas pessoas deixam que vejamos delas. Por isso tanta decepção, e pior, tanta amenização de questões problemáticas, dependendo de se quem está no holofote é uma celebridade ou algum fulano da vida. Nos preocupamos em estar sempre certos sobre questões atuais, e defendemos nossos pontos com unhas e dentes em detrimento de qualquer respeito ao direito do próximo de discordar da gente. E fazemos questão de não ouví-lo, gritando cada vez mais alto, e mostrando nossa 'superior capacidade de raciocínio lógico e retórica'. Assim, afastando qualquer possibilidade de entender o ponto do outro, e de conseguir ser ouvido. Já que o maior ponto de conflito têm sido a política (partidária ou não), falo para aqueles que não sabem ou esqueceram: política não consiste em vencer e impor sua vontade ao outro, e sim negociar e chegar a um meio-termo, comprometendo o desejo dos dois (ou mais) lados envolvidos nessa negociação. Compromisso, nesse caso, significa que todas as partes envolvidas sairão sem estar completamente satisfeitos, mas ninguém deixará de ser ouvido e atendido em algo do qual não abre mão. Então, o que você não abre mão? E o quanto isso é importante pra você a ponto de te afastar de alguém querido? Se sua resposta for movida por paixão, ou ódio, há de ter cuidado para não estar escolhendo lado errado, e ainda mais desagradável, as batalhas erradas.
Toda essa ocupação mental nos deixa exaustos. Por milhares de anos, os humanos viveram uma vida muito pacata. Mesmo as pessoas mais influentes e famosas, não conheciam mais de algumas dezenas de pessoas em sua existência. Não tinham tantos eventos acontecendo na sua vida, e no mundo (do qual tinham conhecimento) ao seu redor. Se ocupavam em cuidar, além de si, das pessoas que amavam, e do lugar onde viviam. Eu tenho trinta e um anos, e parte da minha vida foi assim. Mas a internet ampliou nossos horizontes, expandiu nossas possibilidades, de uma forma sem precedentes, e em questão de poucos anos. E isso é especialmente verdade num país como o Brasil, que o acesso a internet e aparelhos como smartphones, se tornou algo comum e mais facilitado recentemente. Nada disso é necessariamente ruim, dependendo do que fazemos com isso, e de como nos colocamos perante a esse infinito de informações e cenários possíveis de interação. Mas, toda mudança muito drástica do modo de viver, individual ou coletivo, como nesse caso, sem que tenhamos sido preparados para isso, pode ser muito danoso. As regras, costumes e etiquetas desse novo universo ainda estão sendo criadas, testadas, quebradas, e em tempo real. Algo inerente à sua própria natureza, camaleônica e subversiva. Aos poucos nos damos conta de que o mundo virtual é uma extensão desse, e não está à parte dele, portanto deve obedecer às mesmas regras éticas. Mas é esse viver tão acelerado, onde temos que estar prontos para emitir opinião instantânea, ou à ação imediata, sem parar pra investigar, meditar, digerir... Isso faz com que tenhamos a impressão que não temos tempo para nada. Quando perdemos tanto tempo com questões banais e desnecessárias, nos impedindo de olhar pra dentro, e de perceber o impacto que nossas vidas geram em outras vidas. Como nosso modo de viver determina o presente e futuro das pessoas que amamos e afeta o lugar em que vivemos.
A boa notícia, é que nós podemos ter um bom convívio com as pessoas, inclusive por meio da internet, e de forma utilitária, não vazia. Ao mesmo tempo que não precisamos nos orientar pela bússola do próximo. Ou seja, não precisamos ser tão rico, tão bonito, tão viajado, tão feliz, quanto o outro, nosso modelo, nos parece. Não há perfeição! E você não deveria estar lendo essa afirmação aqui para entender isso, é senso comum. Então por que continuar infeliz procurando por isso?
Busque o que é especial pra você, o que dá sentido a sua existência. Mas que nunca seja para agradar a terceiros. Que seja para que você sinta orgulho de si, mesmo que ninguém, além de você, saiba o que é, e conheça suas realizações. Essa motivação é a real! Sem barganhar por atenção. Sem se medir pela régua de outras pessoas, pois cada um tem a sua.
Por fim, maus hábitos são extremamente difíceis de serem combatidos, eu sei. Luto todos os dias contra os meus, perdendo miseravelmente quase sem notar. Por isso, penso que a estratégia mais válida, é introduzir bons hábitos, talvez até opostos aos seus maus hábitos, em sua rotina. Algo que acrescente à sua vida, ou de seus entes queridos, da sua comunidade. Se doe um pouco ou defenda algo em que acredita. Mas de forma a inspirar amor e esperança, nunca ódio e medo. Se para defender algo você precisa gerar ódio ou medo nas pessoas, ou a causa não é justa, ou você está fazendo do jeito errado.
*Esse texto será dividido em duas partes. Aqui apresento como que uma lista de sintomas num esboço rápido do que estamos vivenciando, além de formas de conviver com esses sintomas. E no próximo, pretendo investigar como chegamos a esse ponto, e o que podemos fazer para reverter esse quadro, e uma olhadinha na minha experiência e planos para melhorar.
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