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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Agrotóxicos e transgênicos, sua relação com as mudanças climáticas e o potencial do Brasil numa prática regenerativa

Hoje o Brasil é o segundo país a usar mais sementes transgênicas, e o maior no uso de agrotóxicos, inclusive o segundo maior consumidor de agrotóxicos proibidos em outros lugares do mundo. Mas o que é produzido no país? E mais importante, a quem é destinada essa produção? 

Aqui, como em outros países da América latina, e outros países subdesenvolvidos no globo, produz-se commodities agrícolas, entre outros. Que em geral são exportados para os mesmos países que proíbem o uso de agrotóxicos e transgênicos em suas terras. Mas, curiosamente, permitem a importação de produtos transgênicos, e em que foram usados os mesmos agrotóxicos proibidos por lá. Fazendo de países como o nosso, os chamados "celeiros do mundo", pela alta taxa de produção de grãos.

Mesmo com essa alcunha, aparentemente tão importante e simbólica, esses países permanecem miseráveis. Produzir mais alimento para o mundo, além de não promover nosso crescimento econômico, tem exaurido nossos bens naturais. Como:

  • a biodiversidade, tanto vegetal quanto animal, com o desmatamento de florestas para a implantação de monocultura em larga escala; 
  • o solo, que passa de um deserto verde, com as monoculturas, a deserto no sentido literal, por esgotamento deste, em poucos anos de mau uso; 
  • a água, dos recursos mais importantes! Motivo para a vida nesse planeta ser possível. 

A agricultura é responsável por mais de 60% do consumo de água doce no mundo. No Brasil esse número aumenta para 70%. Água essa que se torna contaminada pelos produtos químicos usados, que acabam chegando aos nossos rios, lençóis freáticos e até os oceanos. 

Concluímos portanto que o agronegócio é a prática de troca da vida por dinheiro. Para a sustentação de um modelo de negócio que se baseia, principalmente, na produção de alimento para a pecuária, e na própria pecuária em si. Como no caso da soja e o milho, dois dos produtos mais plantados no Brasil, que são voltados para a alimentação animal na pecuária. Que é um dos maiores causadores de gases do efeito estufa. Nosso país, como um dos maiores exportadores de carne, é portanto, um dos maiores contribuidores para as mudanças climáticas. Com as práticas de destruição de florestas para instalação de monoculturas e pastagens. 

Nos últimos anos, o descaso do poder público com o meio ambiente e os territórios dos povos tradicionais, aumentou o desmatamento ilegal e as queimadas da mata restante, principalmente nos biomas da Amazônia e Cerrado. Ameaçando, não só a existência desses biomas e sua biodiversidade, mas a própria vida no planeta. Uma vez que retiradas as florestas, é questão de tempo para os desertos se consolidarem. Sem floresta, não há chuva. Os oceanos vão retirar a umidade dos continentes, causando secas, aumento da temperatura do planeta, e fenômenos como tufões, tornados, enchentes, secas, tempestades, invernos rigorosos e outros desastres naturais. Que são só alguns dos exemplos do que veremos cada vez mais, enquanto navegamos por um clima, não mais tão cômodo pra vida. Isso tudo virá associado a uma massiva extinção de espécies alimentícias, além de fauna e flora silvestre. E consequente fome, com um maior agravamento da pobreza no mundo. Esse é o período geológico causado pelo humano, o Antropoceno. Resultado de séculos de colonização do resto do mundo pelos europeus, dois séculos de industrialização, e menos de um século da Revolução verde.

E ainda nem adicionamos à equação o fator humano. Antes da Revolução verde realmente se consolidar no Brasil, a população rural e urbana era equilibrada. A maioria dos brasileiros viviam no campo nos anos 60s, 55,3%. Em dez anos, o oposto acontecia, e a maioria da população se tornaria urbana, 55,9%. De lá para cá, apenas cerca de 15,6% da população se encontra em regiões rurais. Isso é resultado direto do Agronegócio. Vários fatores contribuíram para isso. Entre eles:

  • a instalação de grandes latifúndios com maquinários e tecnologias que dispensam muita mão de obra;
  • o aumento na ocorrência das ditas "pragas" e doenças das lavouras, como consequência do uso desses agrotóxicos;
  • contaminação das sementes crioulas (sementes selecionadas e plantadas por agricultores e passadas por gerações) por polinização cruzada com as sementes transgênicas, causando alterações inesperadas e desvantajosas;
  • falta de constância das chuvas, e aumento na ocorrência de fenômenos ligados às mudanças climáticas, como secas prolongadas e geadas fora de tempo; 
  • propaganda e educação financiada pelo próprio Agronegócio (no Brasil desde os anos 40 com a Fundação Rockfeller e seu programa de extensão e educação rural), com práticas tradicionais de agricultura sendo rebaixadas como "atrasadas" e inadequadas para a modernidade, e o estímulo para a "modernização" do campo;
  • desvalorização do trabalho no campo, tido como muito duro, e adequado apenas à pessoas sem educação formal. Desestimulando assim a permanência dos jovens, principalmente de territórios tradicionais, em suas comunidades. Que por falta de autoestima e melhor alternativa de sobrevivência, acabam migrando para os centros urbanos;
  • falta de estrutura e apoio do estado para agricultura familiar e área rural em geral, entre outros.

É esperado que pouco mais que 15% da população trabalhe para alimentar todo o restante, em condições precárias e sem valorização de seu trabalho e dos frutos do seu esforço. Não é de se admirar que as novas gerações procurem se educar em campos não voltados a agricultura, e abandonem a zona rural em busca de oportunidade melhor de vida nas cidades. O que acaba por gerar e aumentar os problemas nos centros urbanos, como falta de estrutura, saneamento básico, saúde, educação, criminalidade, etc.

Possíveis Soluções

O Brasil existe como um país rico em bens naturais que poderia ser uma potência econômica mundial. E mais importante, um exemplo de como desfrutar bem de toda essa riqueza natural, sem nunca esgotá-la, e tendo um povo vivendo bem desses, e por esses recursos. Para isso podemos trocar o Agronegócio, que só envenena, empobrece e não alimenta nossa população, por Ecoturismo e Turismo agroecológico.  Mantendo nossas reservas naturais, melhorando a vida das comunidades que vivem nesses territórios, sua autoestima e renda. Resolvendo o problema de evasão rural, e por consequência,  melhorando as condições nas cidades. 

Com isso, as terras, antes usadas pelo latifúndio, poderiam finalmente ser distribuídas, através da tão esperada e atrasada Reforma Agrária, e regeneradas com práticas como Permacultura e  Agrofloresta Sintrópica. Num esforço de recuperar nossos biomas, enquanto produzindo comida saudável, local, diversa e economicamente mais viável, do que as práticas agrícolas atuais. Essa mudança não é só possível, como existente atualmente em pequena escala. Hoje movimentos camponeses como o MST já trabalham de forma agroecológica. E, pelo menos 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros vem da agricultura familiar, e não de grandes latifúndios. Claro que um esforço para capacitação de uma assistência técnica e financiamento inicial se faria necessário e indispensável. 

Seria essencial uma prática de educação socioambiental, e implementação de programas como: práticas de agricultura urbana; saneamento básico com reciclagem de água e lixo; implantação do uso de energias ditas limpas; reeducação alimentar favorecendo o consumo de alimentos não processados e a redução do consumo de animais; implementação de melhoria dos transportes coletivos nas cidades; melhoria no planejamento urbano, e por fim, e não menos importante, um sistema de educação voltado para a cooperação e valorização da diversidade, de ideias, de corpos, de origens, e não mais na competição e padronização. 

Uma interação maior das pessoas com seus territórios e sua natureza, melhorando seu convívio com a Terra, nos curando da ideia de que estamos de alguma forma, separados da vida no planeta. Nos fazendo entender que como parte dessa vida, e como ser racional, que pode planejar seus atos, podemos contribuir pra sua manutenção e melhoria. Mesmo assim, sem dar as costas para o progresso científico e a modernidade. Porém nesse modelo, cada um teria seu papel na mudança. Ninguém esperaria apenas pelo Estado ou empresários. Seriam necessários grandes sacrifícios, responsabilidades e tempo para adaptação e observação de resultados. 

Uma das maiores lições na Agroecologia é que o tempo da Terra é diferente do tempo humano. Se queremos algo rápido, fácil, e portanto lucrativo economicamente, podemos estar sacrificando o nosso tempo como espécie no planeta e também como indivíduos. E no processo, sacrificando outras espécies. A Terra tem suas atividades de autorregulação, é resiliente... Mas passamos dos limites de estresse que poderíamos causar a esse organismo, do qual ele pudesse se recuperar. Estamos falando agora de uma Terra que passa por um quadro de redução de saúde, que a levaria, fazendo um paralelo com o corpo humano, a UTI. Queremos retribuir à divindade da Vida, transformando esse ser tão generoso e estatisticamente improvável, com seu clima perfeito à vida como conhecemos, em mais um planeta estéril nesse Sistema?! A vida é o que faz a própria vida possível no planeta! Tudo funciona igual ao nosso corpo, com processos de regulação minuciosos. E são esses processos que estão sendo quebrados por nossas ações como espécie. Não é mais possível decidir por não fazer nada, e não é nada inteligente continuar ignorando o chamado para a mudança e ação!

 Fontes consultadas (de leve, não muito cientificamente):

AGROTÓXICOS, SEMENTES TRANSGÊNICAS E NOVAS BIOTECNOLOGIAS - http://revistas.aba-agroecologia.org.br/index.php/rbagroecologia/article/view/22988/14276

PROPRIEDADE MONOPOLISTA DE SEMENTES: DO BEM COMUM À
 
A BIOTECNOLOGIA E SEUS USOS ENTRE SEMENTES CRIOULAS E TRANSGÊNICAS:DUAS FACES DA TECNOLOGIA E UM CASO PARA A BIOÉTICA - https://revistas.unicentro.br/index.php/guaiaraca/article/view/6142/4242
 
O AQUECIMENTO GLOBAL E A TEORIA DE GAIA: SUBSÍDIOS PARA UM DEBATE DAS CAUSAS E CONSEQÜÊNCIAS - https://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/climatologia/article/view/720

PERCEPÇÃO DOS AGRICULTORES EM RELAÇÃO AO USO DE AGROTÓXICOS E SEMENTES TRANSGÊNICAS - http://tede.unioeste.br/bitstream/tede/4034/5/Gislaine_Santos_2018

Brasil é 2º maior comprador de agrotóxicos proibidos na Europa - https://ciclovivo.com.br/vida-sustentavel/alimentacao/brasil-e-2o-maior-comprador-de-agrotoxicos-proibidos-na-europa/
 

Atividades que mais consomem água - https://brasilescola.uol.com.br/geografia/atividades-que-mais-consomem-agua.htm

A MIGRAÇÃO DO CAMPO PARA OS CENTROS URBANOS NO BRASIL: DA DESTERRITORIALIZAÇÃO NO MEIO RURAL AO CAOS NAS GRANDES CIDADES - http://www.congresso2017.fomerco.com.br/resources/anais/8/1502235198_ARQUIVO_fomerco_AMIGRACAODOCAMPOPARAOSCENTROSURBANOSNOBRASIL.pdf

 
Agrotóxicos proibidos na Europa são campeões de vendas no Brasil - https://reporterbrasil.org.br/2018/12/agrotoxicos-proibidos-europa-sao-campeoes-de-vendas-no-brasil/
 
 
 
Qual a contribuição do Brasil para as mudanças climáticas? E qual o perfil das emissões brasileiras? - https://ipam.org.br/entenda/qual-a-contribuicao-do-brasil-para-as-mudancas-climaticas-e-qual-o-perfil-das-emissoes-brasileiras/

Alguns documentários e vídeos quea a entender o Agronegócio e suas impactos para as mudanças climáticas e a vida humana, e sobre Agroecologia e Agrofloresta sintrópica:

Cowspiracy - A Conspiração da Vaca 

 


https://www.youtube.com/watch?v=sgj5Z9MZOaI 

 

O Mundo Segundo a Monsanto 


 

https://www.youtube.com/watch?v=sWxTrKlCMnk

  

Agrofloresta - agricultura recuperando o meio ambiente

 


https://www.youtube.com/watch?v=uSiuV0CkREM


Ser Tão Velho Cerrado


 



Agroecologia, Agrofloresta e PANC | Valdely Kinupp

 


https://www.youtube.com/watch?v=1H4ySHAJyB4

 

 E qualquer vídeo no Youtube com o Professor Antônio Donato Nobre, mas aqui vão alguns:

Sobre Teoria de Gaia, Mudanças climáticas e práticas regenerativas:


 
https://www.youtube.com/watch?v=FkDaQXlrHyA&t=64s

 

Córtex com Antonio Nobre. Mudança Climática e o Fim do Mundo Materialista
 
 
 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Vibração

Tudo no universo vibra, mesmo o que parece completamente parado, vibra num nível molecular... E com essa reflexão eu quero começar uma atualização aqui neste blog.

Eu nunca mudei tanto antes, ou de alguma forma me movi, como durante essa quarentena. E falo quarentena porque tenho realmente permanecido distante fisicamente de todas as pessoas, até das mais queridas, exceto é claro, do meu companheiro. Isso porque tenho essa possibilidade, de estudar de casa, e sem trabalhar, a não ser nas tarefas domésticas e atividades de manutenção de vida. Da nossa, e dos seres que aqui cuidamos. Que devo lembrar sempre, mesmo que eu não o faça bem e regularmente, é um trabalho válido e necessário.

Talvez pelo apoio recebido, do meu companheiro, meu terapeuta, professores, novos e velhos amigos... Talvez pela curiosidade e vontade de me encontrar na equação da vida. Tenho aprendido mais do que nunca! Reconhecido o que são problemas, e o que me fizeram enxergar como tal. Aceitar a vida como ela se apresenta é uma luta constante, mas se prova a coisa certa a se fazer, de novo e de novo. 

Claro que não estou falando de aceitar o que posso mudar, como esse desgoverno e esse adormecimento às questões urgentes que dizem respeito à manutenção da vida na Terra, e da Terra. Não, não isso, mas de coisas com as quais vale mais a pena acolher que lutar contra. Vale mais a pena aceitar que condenar e tentar mudar a todo custo, ou reprimir.

Cresci espiritualmente, de uma pessoa ateia, antes quase fanática, a alguém que entende que a vida em si é uma divindade, e que TUDO é vivo, dentro e ao redor de nós. 

Cresci, e continuo trabalhando para crescer mais, no meu relacionamento afetivo. Entendendo nossas limitações e necessidades. Estudando sobre como aprendemos a amar, e que cada um ama e se sente amado de forma diferente. E principalmente, que não se deve esperar que o outro te dê o amor que você se deve. 

Apesar dos golpes constantes, e talvez até por conta destes, minha vontade de estudar Agroecologia, e trabalhar com comunicação e educação ambiental só cresce, pois a necessidade se faz cada vez maior e mais presente. E tão urgente que está atrasada uns 30 anos...

E com isso, venho aqui apenas para recomendar palestras e entrevistas com o Professor Antônio Donato Nobre sobre Mudanças Climáticas, sobre a importância de se ouvir os povos tradicionais e seus conhecimentos a cerca da vida nesse organismo vivo que é a Terra, sobre a nossa desconexão com Ela, sobre em como chegamos aqui, e principalmente, do que precisamos fazer para parar de trabalhar contra a vida, e trabalhar em seu favor!

Primeiro uma pesquisa sobre o nome de Antônio Nobre no Youtube já te trará uma grande quantidade de vídeos de dimensões diferentes, mas riquíssimos em conteúdo e importância para o entendimento de nossa condição humana e dos processos que acontecem na natureza. Dos quais o ser humano "civilizado" precisou investigar para aprender, quando os povos e culturas tradicionais, que não perderam a conexão com a Terra, conheciam e sempre estiveram dispostos a partilhar generosamente com seus irmãos desconectados.

https://www.youtube.com/results?search_query=antonio+nobre

Programa Córtex, uma conversa em tempo real com o Antônio Nobre no INPE. Imperdível!

https://www.youtube.com/watch?v=_9-fia-bdlo

Entrevista (palestra?) sobre Mudanças climáticas e a Terra como organismo vivo e os estudos a respeito da mesma.

https://www.youtube.com/watch?v=FkDaQXlrHyA

Conversa entre Ailton Krenak e Antonio Nobre para reflexões sobre Gaia (Terra).

https://www.youtube.com/watch?v=ozOla97mP9Y

 Eu diria assistam todos, é o que estou fazendo aos poucos.

 Descobrir o trabalho dele, como divulgador científico, e uma pessoa que faz tantas conexões, tão inesperado para um cientista, mas muito alinhado com a visão sistêmica da Agroecologia como ciência, me deixou fascinada e estou vibrando desde então. Tenho a impressão que o norte que eu busco, está se estabilizando, e que eu só preciso colocar o pé no chão e começar a andar.

Que meus passos também possam inspirar outros. Que o "trabalho de formiguinha" , não seja visto de forma pejorativa como hoje, mas como uma ação válida e constante para o alcance coletivo do que se faz tão mais urgente e necessário a cada dia que passa, a cada decisão e ação de gigante que vão contra as regras de colaboração e diversidade da natureza. Porque sozinho o esforço é grande e dispendioso, mas juntos podemos mover o mundo!


terça-feira, 28 de maio de 2019

Presa em realidades alternativas

Hoje eu não tive um dia ruim. Tudo continua ok. Nada de particularmente errado ou ruim acontecendo no meu mundo, mas eu estava naquele lugar. Quando eu falo "estou naquele lugar" significa que não consigo me livrar de pensamentos ruins que vêm sem nenhum convite, e permanecem por pura teimosia. Em momentos assim você se sente incapaz em muitos sentidos. Mas em geral, incapaz de ser feliz. Viver dá muito trabalho! Quem me conhece sabe que não tenho porque ter esses pensamentos. Minha vida é muito boa, e a vida e as pessoas nela, sempre foram muito gentis comigo. Eu não sofri muito enquanto crescia. A única coisa que posso realmente "reclamar" que sofri foi um péssimo relacionamento com minha mãe, que durou enquanto ela viveu, e claro, como sou mulher, assédio desde que me entendo como gente.

Já tentei inúmeras vezes criar fórmulas pra sair desse estado mental. Anotei até um checklist para dias assim. Que nunca mais olhei desde que escrevi. O fato é que em dias como hoje, eu não lembro, nem chego a pensar em condutas que possam me tirar dessa zona sombria. Ao menos é o que sempre acontece comigo. Eu esqueço completamente de todas as minhas resoluções para uma vida mais plena. E se encontro qualquer dificuldade nesse dia, por menor que seja, a vontade é de deitar no chão e esquecer como respirar. É até estúpido dizer isso pra alguém que talvez nunca tenha passado por isso. E que, pior, tenha reais dificuldades em sua vida, e leve a vida normalmente, como um ser humano médio deveria ser. Mas todos temos as nossas lutas. E a gente não pode esquecer disso.

Eu costumava pensar que só eu tinha esses sentimentos. Quando a gente sofre, sempre se coloca num estado de solidão. Mas se a gente olhar ao nosso redor, vai notar muita gente lutando as mesmas batalhas sozinhos. Eu tenho vários problemas com meu ego. Um deles é achar que posso consertar o mundo, quando não consigo nem cuidar de mim mesma. Quando eu me nego, ou não consigo mesmo, ajudar alguém que amo, ou qualquer pessoa do qual o sofrimento eu tenho conhecimento. Ou pior ainda, quando penso, muito egocentricamente, que de qualquer forma incomodei, desapontei ou prejudiquei alguém. Bem, é nesse momento que é mais fácil cair nessa espiral. E não precisa ser nada grave.

A parte positiva de envelhecer, e já ter passado por isso tantas vezes, é saber que passa. Tudo passa,  até momentos ruins. Na perspectiva de alguém que já viveu um pouquinho, eu sei que nem tudo tem a importância que a gente costuma dar. E que com o tempo, outras coisas vão importar muito mais. Aquilo com o qual a gente se preocupa hoje, não será nem uma fração de memória em nossa mente no futuro. Olhar pra trás é se compadecer com o eu do passado e pensar em todos os momentos que deixamos de viver porque estávamos pré-ocupados. Minha esperança é aplicar esse conhecimento em meu benefício sempre que possível, sempre que eu consigo notar esses padrões, e me tirar dessas situações, cada vez mais rápido.

Não, eu não sou uma pessoa ruim, nem sem valor. Sim, eu posso ser feliz, e sim eu mereço amor! Você que estiver lendo isso, é tão merecedor de amor, como qualquer outro ser nesse planeta. Comece por você mesmo. Ame-se!

quarta-feira, 27 de março de 2019

Movimento instrumental

Vivemos um momento da história rico em possibilidades de mudança. Mudanças são importantes e necessárias. Afinal, "água parada cria limo", no máximo mosquito da dengue, certo? Ou seja, nada de positivo vem da estagnação. E isso é lógico porque há um movimento que deve nos guiar. Como água que segue até o mar, nós passamos por vários lugares diferentes, situações diferentes, estados diferentes. Mesmo que você passe no mesmo lugar duas vezes, algo vai ser diferente da segunda vez. 

Você é uma pessoa diferente todos os dias, as células no seu corpo gradativamente se multiplicam e morrem, com intervalos diferentes pra cada sistema. Em apenas cinco dias você tem todas as células do estômago e intestino renovadas, e em 10 anos, o ciclo de renovação das células do seu esqueleto se completa. Mas todo dia há em você fins e inícios de vida de uma infinidade de células - e até de outros seres, como as bactérias e fungos que nos colonizam e tornam possível nossa vida. Então por que achar que nossa vida será sempre a mesma? Que nossos pensamentos são imutáveis? 

O que torna a vida viável é o movimento, seja de átomos ou de nossos corpos. Iniciando com movimentos pequenos que vão viabilizando movimentos cada vez maiores. Quando aprendemos a andar: um pezinho na frente do outro, não estamos pensando em correr maratonas. Mas um dia isso se torna possível para a maioria de nós. Na natureza tudo se move, mesmo quando seu movimento não nos é óbvio inicialmente, como nas plantas por exemplo. Elas se movem em busca do sol, ou até em resposta a estímulos mecânicos. E como qualquer outro ser, elas crescem, e expandem seu território. Devagar e sempre.

Não somos um projeto acabado, estamos em constante evolução. Nos movemos em direção a alguma coisa. E a jornada é mais importante do que a chegada. No caminho é que temos a felicidade, não necessariamente no nosso objetivo. Com isso em mente, não se prenda ao que você pensou que era hoje quando acordou. Você está em constante mudança, recrie-se! 

Seja curioso, se interesse pela vida, pelo outro, por você. Não tente fazer o outro te amar, ame-o, ame-se, sem querer em troca, só se dar. 


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

O ser humano em suspensão

Partindo do princípio de que não há verdade absoluta sob esse céu, eu estou aqui pra partilhar minhas recentes descobertas na área de autoconhecimento, e no entendimento do nosso papel no mundo, ou seja, do que é afinal ser humano. Digo de antemão que é só um arranhãozinho na superfície de algo muito profundo, e que ainda que eu vivesse mil anos estudando incessantemente, mesmo assim, não arriscaria dizer que finalmente conheço tudo a respeito desse assunto, ou mesmo que o que descobri é a verdade.

Até bem pouco tempo, como devem saber os que não estão me lendo pela primeira vez, ou os que me conhecem, eu me mantinha isolada do mundo, numa posição confortável de evitar até mesmo as redes sociais. Não me arrependo desse hiato de presença virtual, pois esse tempo longe das mídias sociais foi bastante importante para uma melhor perspectiva a respeito do que a internet, e os meios pelos quais interagimos dentro dela, significam. Me sentir uma outsider (alguém de fora) nessa conjuntura, me ajuda, por vezes, a ter uma visão mais prática e realista dessas ferramentas. Menos glamourosa ou demonizada.

Agora, já há um tempo usando, confesso que até abusando de tempos em tempos, desses meios de interação, até devido a resistência de me comunicar com as pessoas no mundo real. Noto nos outros o que pensava era farto em mim, e que era um defeito meu, o que me fazia completamente infeliz e sem esperança de um futuro mais otimista no horizonte. Boa parte de nós (ao menos na minha constatação, que pode estar enviesada, pode ser contaminada pelas bolhas sociais e/ou pela necessidade de me ver nos outros) sente um vazio. Muitos não sabemos o que realmente queremos na vida, e da vida. Quase todo mundo fantasia com fugas para uma existência completamente diferente da sua. Uma escapatória aos doces vícios aos quais nos habituamos, e que parece, não nos deixarão mais em paz. Estaríamos doentes como indivíduos ou como seres sociais?

Nos ocupamos admirando (podemos ler também: invejando) recortes de vidas, que estão perfeitamente emoldurados para nosso entretenimento, com intuitos muitas vezes escusos. Amamos ou odiamos pessoas baseados no que essas pessoas deixam que vejamos delas. Por isso tanta decepção, e pior, tanta amenização de questões problemáticas, dependendo de se quem está no holofote é uma celebridade ou algum fulano da vida. Nos preocupamos em estar sempre certos sobre questões atuais, e defendemos nossos pontos com unhas e dentes em detrimento de qualquer respeito ao direito do próximo de discordar da gente. E fazemos questão de não ouví-lo, gritando cada vez mais alto, e mostrando nossa 'superior capacidade de raciocínio lógico e retórica'. Assim, afastando qualquer possibilidade de entender o ponto do outro, e de conseguir ser ouvido. Já que o maior ponto de conflito têm sido a política (partidária ou não), falo para aqueles que não sabem ou esqueceram: política não consiste em vencer e impor sua vontade ao outro, e sim negociar e chegar a um meio-termo, comprometendo o desejo dos dois (ou mais) lados envolvidos nessa negociação. Compromisso, nesse caso, significa que todas as partes envolvidas sairão sem estar completamente satisfeitos, mas ninguém deixará de ser ouvido e atendido em algo do qual não abre mão. Então, o que você não abre mão? E o quanto isso é importante pra você a ponto de te afastar de alguém querido? Se sua resposta for movida por paixão, ou ódio, há de ter cuidado para não estar escolhendo lado errado, e ainda mais desagradável, as batalhas erradas.

Toda essa ocupação mental nos deixa exaustos. Por milhares de anos, os humanos viveram uma vida muito pacata. Mesmo as pessoas mais influentes e famosas, não conheciam mais de algumas dezenas de pessoas em sua existência. Não tinham tantos eventos acontecendo na sua vida, e no mundo (do qual tinham conhecimento) ao seu redor. Se ocupavam em cuidar, além de si, das pessoas que amavam, e do lugar onde viviam. Eu tenho trinta e um anos, e parte da minha vida foi assim. Mas a internet ampliou nossos horizontes, expandiu nossas possibilidades, de uma forma sem precedentes, e em questão de poucos anos. E isso é especialmente verdade num país como o Brasil, que o acesso a internet e aparelhos como smartphones, se tornou algo comum e mais facilitado recentemente. Nada disso é necessariamente ruim, dependendo do que fazemos com isso, e de como nos colocamos perante a esse infinito de informações e cenários possíveis de interação. Mas, toda mudança muito drástica do modo de viver, individual ou coletivo, como nesse caso, sem que tenhamos sido preparados para isso, pode ser muito danoso. As regras, costumes e etiquetas desse novo universo ainda estão sendo criadas, testadas, quebradas, e em tempo real. Algo inerente à sua própria natureza, camaleônica e subversiva. Aos poucos nos damos conta de que o mundo virtual é uma extensão desse, e não está à parte dele, portanto deve obedecer às mesmas regras éticas. Mas é esse viver tão acelerado, onde temos que estar prontos para emitir opinião instantânea, ou à ação imediata, sem parar pra investigar, meditar, digerir... Isso faz com que tenhamos a impressão que não temos tempo para nada. Quando perdemos tanto tempo com questões banais e desnecessárias, nos impedindo de olhar pra dentro, e de perceber o impacto que nossas vidas geram em outras vidas. Como nosso modo de viver determina o presente e futuro das pessoas que amamos e afeta o lugar em que vivemos.

A boa notícia, é que nós podemos ter um bom convívio com as pessoas, inclusive por meio da internet, e de forma utilitária, não vazia. Ao mesmo tempo que não precisamos nos orientar pela bússola do próximo. Ou seja, não precisamos ser tão rico, tão bonito, tão viajado, tão feliz, quanto o outro, nosso modelo, nos parece. Não há perfeição! E você não deveria estar lendo essa afirmação aqui para entender isso, é senso comum. Então por que continuar infeliz procurando por isso?
Busque o que é especial pra você, o que dá sentido a sua existência. Mas que nunca seja para agradar a terceiros. Que seja para que você sinta orgulho de si, mesmo que ninguém, além de você, saiba o que é, e conheça suas realizações. Essa motivação é a real! Sem barganhar por atenção. Sem se medir pela régua de outras pessoas, pois cada um tem a sua.

Por fim, maus hábitos são extremamente difíceis de serem combatidos, eu sei. Luto todos os dias contra os meus, perdendo miseravelmente quase sem notar. Por isso, penso que a estratégia mais válida, é introduzir bons hábitos, talvez até opostos aos seus maus hábitos, em sua rotina. Algo que acrescente à sua vida, ou de seus entes queridos, da sua comunidade. Se doe um pouco ou defenda algo em que acredita. Mas de forma a inspirar amor e esperança, nunca ódio e medo. Se para defender algo você precisa gerar ódio ou medo nas pessoas, ou a causa não é justa, ou você está fazendo do jeito errado.

*Esse texto será dividido em duas partes. Aqui apresento como que uma lista de sintomas num esboço rápido do que estamos vivenciando, além de formas de conviver com esses sintomas. E no próximo, pretendo investigar como chegamos a esse ponto, e o que podemos fazer para reverter esse quadro, e uma olhadinha na minha experiência e planos para melhorar.

domingo, 28 de outubro de 2018

Desejo, necessidade, vontade...?!

Eu tenho, ao escrever esse texto, trinta anos, a poucos dias de completar trinta e um. Estou casada há quase sete anos, e já tem um tempinho que começaram as cobranças por um filho, um "fruto" da nossa união.
Durante toda a minha vida antes do Edson, eu nunca me imaginei como mãe, no sentido de ter alguém criado e saído de meu ventre. Mas, em várias oportunidades vislumbrei a possibilidade de ser mãe adotiva, e coisas do tipo.
No iniciozinho do nosso relacionamento eu assisti um filme chamado "O Lutador", e lembro de ter uma vontade forte de ter um filho biológico. A verdade é que acho que não entendi o filme direito na época, e estava muito sensibilizada ainda com a morte de minha mãe. Depois disso, o mesmo desejo em momentos de desespero em meio a crises depressivas muito fortes, e por fim, como resultado de pressão dos meus sogros que, naturalmente desejam netos.
Mas hoje, eu não sinto desejo, necessidade ou mesmo vontade de gerar um filho. Adotar volta e meia é um pensamento recorrente, e aqui vai o porquê: sei que muitas crianças orfãs precisam de alguém que as ame, e que cuide de verdade delas. Não tenho necessidade de laços sanguíneos para amar. Mas há um porém, uma criança que já foi rejeitada, as vezes a partir do seu nascimento (ou concebimento), precisa de alguém forte, e que saiba lidar com suas necessidades e peculiaridades. E eu, por minha vez, ainda não me sinto segura de dizer que sou essa pessoa.
Ter um filho, ou adotar uma criança, que seja, significa ser responsável por uma vida. Ser responsável pelo que será daquele ser, daquele momento por toda a sua vida. É permanente, e é a coisa que mais necessita de sua atenção e total responsabilidade. Tendo dito isso, sim é assim mesmo que vejo. E por isso mesmo, eu acredito que fazer um filho, ou mesmo criá-lo, não te faz um bom pai/mãe. Há muito mais envolvido no processo. E muita gente nunca deveria ter filho. Por enquanto, uma dessas pessoas sou eu.
Estou ciente que não existe uma paternidade/maternidade perfeita. Mas um pai ou mãe tem que prover o essencial para a formação de seu filho. E eu não estou falando apenas da parte material, isso é importante. Mas tem um papel, ao meu ver, até secundário. Uma criança precisa de estabilidade e segurança emocional, um lar sem conflitos, oportunidades para crescer e ser ela mesma, uma certa liberdade e senso de responsabilidade, inclusive por si mesma, e claro, carinho, atenção e amor. E isso alguém que ainda está tentando se encontrar, que não está resolvido, que não está preparado emocional e financeiramente, não pode prover.
Na infância é que formamos nosso caráter, é que definimos, muitas vezes, como seremos por toda nossa vida. E não é justo que a gente ponha filho no mundo porque ache que é nossa obrigação - nós não estamos vivendo um período de baixa no número de humanos, pelo contrário! Eu entendo que há pessoas que sonham em ser pai/mãe, que assim o seja, mas primeiro que organize sua vida, saiba que está pronto pra esse comprometimento irrevogável. Entenda a sua responsabilidade como progenitor/progenitora. Não tenha filho porque acha que deve, você não tem obrigação com sua espécie; porque seus pais/sogros ou apenas seu companheiro/companheira deseja; pra segurar alguém ao seu lado num relacionamento - isso não funciona, e ainda tem o potencial de te fazer sozinho e com um filho pra criar, que por vezes, não terá muito contato com o pai ou mãe, ou os dois, já que se trata de um objeto de barganha e frustração; ou ainda, porque você quer um mini-me seu ou de seu parceiro ou parceira: uma criança é outro ser, e por mais que você se esforce pra educá-lo à sua maneira, ele vai ter os próprios princípios - é assim que o mundo avança, por sinal. Pense em quando estava crescendo, e em como você mesmo é diferente de seus pais.
Em oportunidades anteriores, conversando com conhecidos e amigos, a gente sempre passa por momentos "curiosos" falando sobre o assunto. Tem a parte de ter um filho ser uma coisa sagrada na vida de um casal, o que não nos toca, já que ambos não somos religiosos. Uns olhares tortos, e uma frases do tipo: Ah, vocês ainda vão mudar esse pensamento depois. E a gente fica sem ter argumentos. É claro que a gente pode mudar de ideia depois quanto a querer, o fato é que depois de ter um filho, é que você não pode voltar atrás. Esse é nosso pensamento atual, é óbvio, e como tudo no universo, pode não ser definitivo. A situação que consideramos mais engraçada é quando o casal (ou indivíduo) está reclamando da vida de pai/mãe, do trabalho que dá, de como sua vida nunca mais será tranquila, da responsabilidade, falta de liberdade, daí quando a gente diz que não quer ter filho, o discurso vira outro e aí a pessoa diz que a gente precisa ter filho, porque é bom também, é a alegria da pessoa, é alguém pra cuidar de você quando velho. Que ao nosso ver, é o motivo mais desonesto para se ter um filho. Se você pensa assim, invista algum dinheiro a longo prazo ou faça uma poupança. Dá menos gasto, não irá te decepcionar e é certo de que vai lhe servir em sua velhice (quem sabe você possa pagar uma casa de repouso). Nem todo mundo tem cabeça pra cuidar dos pais quando esses envelhecem, eu sei que é triste, mas é fato. Não é garantia que seu filho ou filha vá querer isso. E não é justo pra ele ou ela, que em sua vida adulta tenha que desistir de sonhos e oportunidades pra cuidar dos pais. É drama demais!
Por fim, isso aqui são devaneios incompletos sobre o que significa pra mim ser mãe ou pai. O que representa ser o cuidador/cuidadora de uma criança. E como você não precisa ser pai ou mãe pra ter uma vida completa.
Tenha filhos, mas apenas se perceber o peso disso, e mesmo assim esteja disposto a arcar com todos os contras. Como tudo nessa vida, é uma decisão que deve ser muito bem pensada. E por enquanto, eu estou do lado dos que não desejam ser pais. Eu ainda quero aproveitar a vida de casal ao lado do Edson, e ser a cuidadora de muitos seres, mas todos bem mais simples que um ser humano.

P.S.: O título desse texto vem de uma música dos Titãs, composta por Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Marcelo Frommer chamada "Comida". E sua letra ilustra bem o que falo sobre o material ser o básico, mas que outros aspectos entram no que é essencial em nossa formação.