domingo, 28 de outubro de 2018

Desejo, necessidade, vontade...?!

Eu tenho, ao escrever esse texto, trinta anos, a poucos dias de completar trinta e um. Estou casada há quase sete anos, e já tem um tempinho que começaram as cobranças por um filho, um "fruto" da nossa união.
Durante toda a minha vida antes do Edson, eu nunca me imaginei como mãe, no sentido de ter alguém criado e saído de meu ventre. Mas, em várias oportunidades vislumbrei a possibilidade de ser mãe adotiva, e coisas do tipo.
No iniciozinho do nosso relacionamento eu assisti um filme chamado "O Lutador", e lembro de ter uma vontade forte de ter um filho biológico. A verdade é que acho que não entendi o filme direito na época, e estava muito sensibilizada ainda com a morte de minha mãe. Depois disso, o mesmo desejo em momentos de desespero em meio a crises depressivas muito fortes, e por fim, como resultado de pressão dos meus sogros que, naturalmente desejam netos.
Mas hoje, eu não sinto desejo, necessidade ou mesmo vontade de gerar um filho. Adotar volta e meia é um pensamento recorrente, e aqui vai o porquê: sei que muitas crianças orfãs precisam de alguém que as ame, e que cuide de verdade delas. Não tenho necessidade de laços sanguíneos para amar. Mas há um porém, uma criança que já foi rejeitada, as vezes a partir do seu nascimento (ou concebimento), precisa de alguém forte, e que saiba lidar com suas necessidades e peculiaridades. E eu, por minha vez, ainda não me sinto segura de dizer que sou essa pessoa.
Ter um filho, ou adotar uma criança, que seja, significa ser responsável por uma vida. Ser responsável pelo que será daquele ser, daquele momento por toda a sua vida. É permanente, e é a coisa que mais necessita de sua atenção e total responsabilidade. Tendo dito isso, sim é assim mesmo que vejo. E por isso mesmo, eu acredito que fazer um filho, ou mesmo criá-lo, não te faz um bom pai/mãe. Há muito mais envolvido no processo. E muita gente nunca deveria ter filho. Por enquanto, uma dessas pessoas sou eu.
Estou ciente que não existe uma paternidade/maternidade perfeita. Mas um pai ou mãe tem que prover o essencial para a formação de seu filho. E eu não estou falando apenas da parte material, isso é importante. Mas tem um papel, ao meu ver, até secundário. Uma criança precisa de estabilidade e segurança emocional, um lar sem conflitos, oportunidades para crescer e ser ela mesma, uma certa liberdade e senso de responsabilidade, inclusive por si mesma, e claro, carinho, atenção e amor. E isso alguém que ainda está tentando se encontrar, que não está resolvido, que não está preparado emocional e financeiramente, não pode prover.
Na infância é que formamos nosso caráter, é que definimos, muitas vezes, como seremos por toda nossa vida. E não é justo que a gente ponha filho no mundo porque ache que é nossa obrigação - nós não estamos vivendo um período de baixa no número de humanos, pelo contrário! Eu entendo que há pessoas que sonham em ser pai/mãe, que assim o seja, mas primeiro que organize sua vida, saiba que está pronto pra esse comprometimento irrevogável. Entenda a sua responsabilidade como progenitor/progenitora. Não tenha filho porque acha que deve, você não tem obrigação com sua espécie; porque seus pais/sogros ou apenas seu companheiro/companheira deseja; pra segurar alguém ao seu lado num relacionamento - isso não funciona, e ainda tem o potencial de te fazer sozinho e com um filho pra criar, que por vezes, não terá muito contato com o pai ou mãe, ou os dois, já que se trata de um objeto de barganha e frustração; ou ainda, porque você quer um mini-me seu ou de seu parceiro ou parceira: uma criança é outro ser, e por mais que você se esforce pra educá-lo à sua maneira, ele vai ter os próprios princípios - é assim que o mundo avança, por sinal. Pense em quando estava crescendo, e em como você mesmo é diferente de seus pais.
Em oportunidades anteriores, conversando com conhecidos e amigos, a gente sempre passa por momentos "curiosos" falando sobre o assunto. Tem a parte de ter um filho ser uma coisa sagrada na vida de um casal, o que não nos toca, já que ambos não somos religiosos. Uns olhares tortos, e uma frases do tipo: Ah, vocês ainda vão mudar esse pensamento depois. E a gente fica sem ter argumentos. É claro que a gente pode mudar de ideia depois quanto a querer, o fato é que depois de ter um filho, é que você não pode voltar atrás. Esse é nosso pensamento atual, é óbvio, e como tudo no universo, pode não ser definitivo. A situação que consideramos mais engraçada é quando o casal (ou indivíduo) está reclamando da vida de pai/mãe, do trabalho que dá, de como sua vida nunca mais será tranquila, da responsabilidade, falta de liberdade, daí quando a gente diz que não quer ter filho, o discurso vira outro e aí a pessoa diz que a gente precisa ter filho, porque é bom também, é a alegria da pessoa, é alguém pra cuidar de você quando velho. Que ao nosso ver, é o motivo mais desonesto para se ter um filho. Se você pensa assim, invista algum dinheiro a longo prazo ou faça uma poupança. Dá menos gasto, não irá te decepcionar e é certo de que vai lhe servir em sua velhice (quem sabe você possa pagar uma casa de repouso). Nem todo mundo tem cabeça pra cuidar dos pais quando esses envelhecem, eu sei que é triste, mas é fato. Não é garantia que seu filho ou filha vá querer isso. E não é justo pra ele ou ela, que em sua vida adulta tenha que desistir de sonhos e oportunidades pra cuidar dos pais. É drama demais!
Por fim, isso aqui são devaneios incompletos sobre o que significa pra mim ser mãe ou pai. O que representa ser o cuidador/cuidadora de uma criança. E como você não precisa ser pai ou mãe pra ter uma vida completa.
Tenha filhos, mas apenas se perceber o peso disso, e mesmo assim esteja disposto a arcar com todos os contras. Como tudo nessa vida, é uma decisão que deve ser muito bem pensada. E por enquanto, eu estou do lado dos que não desejam ser pais. Eu ainda quero aproveitar a vida de casal ao lado do Edson, e ser a cuidadora de muitos seres, mas todos bem mais simples que um ser humano.

P.S.: O título desse texto vem de uma música dos Titãs, composta por Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Marcelo Frommer chamada "Comida". E sua letra ilustra bem o que falo sobre o material ser o básico, mas que outros aspectos entram no que é essencial em nossa formação.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Pronta para me amar mais


Recentemente decidi olhar para dentro, e me vendo, percebi que muitas definições que tinha sobre mim não são certas, ou justas. E outras são simples delírios de uma mente tomada por visões de grandiosidade de si mesma.

Quando estou mal, o que é a maior parte do tempo de minha vida, mesmo quando respondo entusiasmada que estou ótima, me vejo como um grande erro, que sou uma pessoa má, que eu poderia fazer mais por mim mesma, mas principalmente, pelas pessoas que amo, e até pelas pessoas com quem acho que deveria me importar mais. Eu não sou o suficiente, eu não sou o que preciso, ou precisam que eu seja, basicamente, que sou um erro que nunca deveria ter existido. Eu me isolo, me encolho, fico ressentida com tudo o que me dizem, e acho que todo comentário é uma indireta pra mim. Muitas vezes eu sinto que já deu, já vivi mais do que deveria, não tenho vontade de fazer absolutamente nada, mesmo as coisas mais básicas. E isso tudo, sem nada na minha vida justificar esses sentimentos tão intensos e ruins. Eu posso dizer a você que, agora, minha vida só poderia ser melhor, se assim eu a fizesse. E nessas vezes que minto que estou bem, é porque depois de muito reclamar do acaso, e das pessoas ao meu redor, notei que eu é que tenho a chave da minha própria felicidade, eu sou a responsável por ela, mais ninguém. E me faz bem não culpar ninguém, não me lamentar, não arrastar outras pessoas comigo.

Essa parte é embaraçosa, mas vamos lá: quando estou bem, sinto que sou capaz de tudo, sinto que sou mega inteligente, habilidosa, super criativa, sexy e bonita (hilária inclusive). E me pergunto como é que eu me afogo em tanto sentimento ruim, e tanta tarefa acumulada, se é tão "simples e fácil" ficar bem. Nesses momentos que penso em como ser a pessoa que esperam que eu seja, funcional, tendo um trabalho que me traga algum dinheiro e satisfação, em como me manter organizada, em como ter minha casa sempre limpa, em como ser o pilar da minha família, em como ajudar todo mundo, inclusive minha comunidade. Daí eu tenho milhares de "ideias brilhantes", faço mil planos, me convenço de que tudo é simples e que eu não preciso de ajuda, porque eu posso fazer tudo sozinha, certamente. Nunca acontece tudo ao mesmo tempo, ou eu me organizo e organizo a casa, ou eu faço planos mirabolantes, que nunca nem chegam a serem completamente pensados, e promessas que eu sei que não há chance alguma de serem cumpridas. É quando tomo decisões por impulso também, ou falo coisas das quais me envergonho e me arrependo depois.

Imagino quão complicado é para as pessoas que convivem comigo, que não são muitas, por sinal, me verem oscilar entre uma pessoa amável, amiga, acessível e capaz ou que é completamente crítica de todo mundo e dá sermões e conselhos não solicitados, pra alguém que não tem ânimo pra sair da cama ou sofá, que se odeia, e que não consegue manter compromissos, tem medo de fazer qualquer coisa, ou odeia tudo, alguém que está estagnado, que não consegue viver!

E pra quem pode estar pensando em "ah, o que você precisa é de Deus", ou "isso é frescura, mimimi", cara eu queria que você estivesse cem porcento certo! Eu não me importo de estar errada, quando eu estar errada, é a solução. Mas, eu cheguei aqui, nesse nível de esclarecimento sobre mim mesma, o que é só o começo por sinal, nunca parando de me questionar, e me angustiar com a falta de respostas para tanta coisa importante. E principalmente, vencendo o medo de fazer as perguntas que mais receio as respostas.

Agora eu acredito que estou mais perto de entender o que me faz eu. O porque do meu desejo de ser melhor não é o suficiente pra me mover, e é a mesma coisa que me faz sentir como lixo. E estou mais do que pronta para receber ajuda e tentar saber quem sou eu fora desses extremos, e me amar por completo, e funcionar com uma célula normal nesse organismo que somos nós humanos vivendo em sociedade. E ter um papel positivo para as pessoas que posso tocar.

Eu ainda não fui diagnosticada, sendo que ainda não marquei nenhuma consulta. Estou obtendo informações, coletando dados, evidências e fazendo uma reflexão profunda sobre mim e meu comportamento durante toda minha vida (e sim, isso tudo ainda pode ser uma desculpa para não ter feito algo necessário por inúmeras razões, dinheiro sendo a principal. Já falei que sou mão de vaca pra gastar dinheiro comigo?). Por isso não vou dizer o que acho que eu devo ter. Mas se você se identificou com algumas coisas que leu aqui, nós podemos ser irmãs ou irmãos de um certo transtorno, e eu pretendo compartilhar minhas descobertas, e falar sobre saúde mental sempre. Meu intuito é desmistificar transtornos mentais e auxiliar pessoas que precisam, a buscar a ajuda necessária. E sim, pra isso é necessário falar sobre minha vida, minhas experiências, meu defeitos e angústias. Por isso, eu não escrevo para você que se sente uma pessoa "normal", e que acha tudo que eu escrevi absurdo e sem sentido. Por você eu só posso ficar feliz. Mas, para as outras pessoas, as pessoas que não se encontraram ainda, e as que sentem que nunca irão. Pega aqui a minha mão, e vamos em frente! ;*

terça-feira, 2 de outubro de 2018

No caminho.

Estava aqui pensando como já fui ignorante, no sentido de falta de conhecimento mesmo. Como me importei com pré-conceitos e preconceitos que me foram passados por osmose pela minha família, escola, religião (eu fui católica até meus quinze anos)... E o quanto fui infeliz por isso. O quanto, enquanto sob o domínio disso, eu era rasa, diria até vazia mesmo. Privando-me de conhecer outras pessoas, outras culturas, de me conhecer principalmente.
Tem sido um longo caminho, e nos momentos de clareza, como este, eu noto o quanto de conhecimento conquistei até aqui. E eu sei que eu tenho tanto mais para melhorar e crescer, quanto eu melhorei e cresci até agora.
E claro que eu não vim aqui me vangloriar de quão melhor pessoa eu sou por isso ou por aquilo. Venho mesmo sugerir que mantenha sua mente aberta. Não pense que sabe tudo sobre a pessoa ou assunto, a ponto de poder fazer juízo e emitir qualquer opinião. Nada é tão simples! E mais conhecimento sobre um assunto, certamente não vai doer, nem em você, e muito menos na próxima pessoa que você possa ofender com a sua "opinião" baseada em pensamentos que não foram elaborados por você, mas sim, quase que certamente, induzidos ou simplesmente passados como um vírus ou doença genética.
Da próxima vez que estiver pronto pra expelir palavras agressivas, tente entender de onde vem essa raiva, e qual a importância do que você acha sobre alguém ou algo. Você vai se decepcionar, muito provavelmente. E mesmo que seus pensamentos não importem pro ouvinte, a forma que você os entrega, ou seja, suas palavras, podem machucar.


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Vamos falar sobre saúde mental novamente?

Dentre muitas características da minha personalidade, uma eu não consigo classificar como defeito ou qualidade. Eu gosto de resolver meus próprios problemas sozinha. Talvez em áreas mais práticas da minha vida, isso tenha sido bastante útil. Acho que até descobri novas habilidades por conta disso. Mas quando se trata da minha saúde mental, quando experimento coisas novas para me colocar num estado melhor, eu até percebo uma melhora visível, só pra depois voltar para um estado similar ao que me encontrava antes.

Como já mencionei aqui, me reaproximar da minha família, e de outras pessoas que em algum momento foram importantes pra mim, mesmo que de forma tímida e as vezes completamente virtual, me deixou sentindo que esse é o caminho. Tentar aceitar que todo mundo tem defeitos, inclusive eu, e tá tudo bem também. Começar finalmente a fazer coisas que sempre quis fazer, e parar de dar mil desculpas pra não ter começado antes... Nossa, me deixou nas nuvens!

Como fazer uns canteirinhos com o Edson e Mateus e plantar umas coisinhas. Finalmente costurar uma peça que não era pra mim, e fazer alguém feliz com isso. Eu fiquei extasiada por um tempo com esses feitos. É o que me movia a acordar todos os dias. Dar comida e água pros bichos e regar e cuidar dos canteiros. Ter um dia na semana dedicado a ver, ouvir e cuidar de minha irmã e vó, foi uma coisa que eu pensei: poxa, por que não fiz isso antes?! E as coisas na minha vida só poderiam estar melhor, se assim eu desejasse. Eu até comecei um curso de corte e costura, coisa que queria desde que me entendo por gente... Mas, em algum momento, tudo começou a desandar novamente dentro de mim. E eu percebi que não adianta, eu não vou melhorar sozinha... Tudo isso me fez bem, claro. Mas por si só, não conta como "tratamento".

Bem recentemente (tipo hoje, enquanto cuidava dos bichos), admiti que meu problema pode ser um pouco mais grave do que eu imaginei a minha vida toda. E é difícil pra mim, fazer alguma coisa a respeito. Agir de forma ativa para tentar sanar isso. Todos os sentimentos de auto dúvida, sobre se vale a pena gastar dinheiro comigo mesma, e outros sentimentos negativos, os quais não vale nem a pena mencionar. Sim, eu não gosto de gastar dinheiro, quem dirá gastar comigo mesma. Talvez daí se origine todo esse espírito de "faça você mesma" que eu tenho.

Mas eu sei que uma hora a gente passa do ponto de respirar fundo, reconhecer que talvez só um profissional seja capaz de lidar com aquele problema. E finalmente pedir ajuda. É isso, eu espero muito em breve começar a fazer terapia.

Eu quero que você note que, nada disso aconteceu da noite pro dia. Eu estou num processo longo de auto descoberta e auto aceitação. Admitir meus defeitos e problemas (inclusive os de ordem mental) é essencial para me encontrar, me amar de verdade... E não apenas nos momentos em que estou me sentindo bem.

Há muito mais coisas pras quais não tenho resposta ainda, e provavelmente nunca terei. Mas agora que a busca começou, eu não consigo parar! Desejem-me boa sorte. E, se alguém ler isso aqui, dentro em breve eu pretendo escrever um texto sobre como a gente pode ter depressão e outros transtornos de ordem mental, sem que nada justifique bem isso na nossa vida atual. Pois é exatamente isso que acontece comigo.

Caso eu tenha algum leitor que não seja um bot, obrigada por ler até aqui. Ah, e se você precisa de ajuda, com qualquer coisa, eu posso ao menos escutá-lo. Até mais!

P.S.: A quem possa pensar que eu estou me expondo demais escrevendo sobre minha vida e saúde mental na internet. Eu não faço isso por piedade, nem algo do tipo. Eu faço isso por dois motivos: um é que escrever me ajuda a colocar os pensamentos em ordem, entender o que realmente estou sentindo. E o principal, é que em vários momentos, eu li textos, vi vídeos, ou qualquer peça de arte e afins de pessoas com problemas, que compartilham isso, pra que um dia seja algo de que possamos falar abertamente. E não um tabú, que leva tanta gente ainda hoje, a morrer em silêncio. E com isso eu só quero aumentar esse movimento. Mostrar que quando nos mostramos vulneráveis, é que somos mais fortes!

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O preço do individualismo

Esses dias, enquanto lavava louça, lembrei do trecho de um poema que sintetiza bem o que venho tentando acatar em minha vida recentemente. A consideração e preocupação com o próximo, seja o próximo quem for. Eu tendo, egoistamente, a me fechar no meu próprio mundo. Alheia assim as necessidades e desejos das outras pessoas ao meu redor. Desde quem quer apenas desfrutar de minha companhia (sabe-se lá por qual motivo!), ou quem precisa de algo que eu posso prover. É lógico que aqui estou iniciando com uma reflexão micro, mas mais tarde chegaremos onde realmente importa.

Ao pesquisar, descobri que são poemas, no plural, e de mais de um indivíduo. Então, irei pedir licença para apresentá-los aqui:

Martin Niemöller

"Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar."

Intertexto -- Bertold Brecht

"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."

No caminho com Maiakóvski
Eduardo Alves da Costa

"Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada."

Todos esses textos representados acima, refletem sobre como se importar e lutar pelo próximo, significa na realidade, se importar consigo mesmo. Não desmerecendo o altruísmo*, mas trazendo-o para a crua realidade de nós humanos como espécie. O altruísmo, e a empatia são como mecanismos de autopreservação. Logo, não se importar com o outro, a ponto de desumanizá-lo para justificar nossa negligência ou mesmo atitudes prejudiciais, fará com que não tenhamos mais voz válida quando for o nosso momento de necessidade.

Por mais doce que seja pensar que nos bastamos na vida, que somos autossuficientes. A verdade é que somos seres totalmente dependentes uns dos outros, seja por companhia, aprovação, e indispensáveis (ou não) serviços e produtos. Como seres integrados em sociedade não temos o hábito de parar pra pensar o quanto precisamos do outro. Então, lá vai uma sugestão de exercício: faça notas mentais (se preferir, anote mesmo em papel ou no celular), de tudo que usou ou fez hoje, e que não seria possível se outra pessoa não pudesse providenciar ou dispor pra você. Talvez você note a importância de pessoas em quem usualmente você não pensa, ou não dá o devido crédito. Desde o agricultor que cultiva os alimentos que fazem parte de suas refeições três ou mais vezes ao dia (espero eu que pelo menos três), a sua mãe que acorda cedo para fazer seu café da manhã, ou a roupa que está usando que pode ter sido feita do outro lado do mundo por várias pessoas.

Nem todas as pessoas farão por você sem que possam receber algo em troca, nem todo mundo tem o interesse genuíno em sua existência (como seus pais, por exemplo), mas todos estamos numa teia de contribuição para mantermos uns aos outros. Que tal refletir sobre isso? Notar que somos seres da mesma espécie, com o mesmo objetivo (sermos felizes) e interferir na vida do outro APENAS para que esse alcance a felicidade, ou a mantenha. Claro que falo isso a respeito do dia-a-dia. Eu sei que há crimes a serem punidos, e pessoas que precisam de ajuda para enxergar o mal que fazem. Por isso que peço: pensem sempre se o que está fazendo prejudicará alguém, e aja de acordo com o que mais se encaixa com o pensamento de: não farei ao outro, o que não desejo que façam a mim. Porque o que acontece quando pensamos de uma forma, e agimos de outra, é que adoecemos. É de extrema importância que tenhamos o amor em mente, e que bons sentimentos guiem nossas escolhas. E nunca feche os olhos para uma injustiça, seja ela com quem for. Mesmo com aqueles que são o completo avesso do que nós somos. Injustiça é exatamente o que significa.



*altruísmo
substantivo masculino
  1. filosofia
    segundo o pensamento de Comte 1798-1857, tendência ou inclinação de natureza instintiva que incita o ser humano à preocupação com o outro e que, não obstante sua atuação espontânea, deve ser aprimorada pela educação positivista, evitando-se assim a ação antagônica dos instintos naturais do egoísmo.
    • amor desinteressado ao próximo; filantropia, abnegação.
https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/ciro-protesta-com-poesia-mas-erra-o-autor/n1237597600680.html
Apesar de esse link conter notícia sobre um presidenciável, quero dizer que sou avessa a conversar sobre o assunto, pois não tenho nada e nem ninguém para defender. É apenas a fonte conveniente dos textos que precisava para essa reflexão. Traduzindo: me deixem fora dessa!


Martin Niemöller, símbolo da resistência aos nazistas - 1933
"Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar."Fonte: Último Segundo - iG @ https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/ciro-protesta-com-poesia-mas-erra-o-autor/n1237597600680.html
Martin Niemöller, símbolo da resistência aos nazistas - 1933
"Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar."Fonte: Último Segundo - iG @ https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/ciro-protesta-com-poesia-mas-erra-o-autor/n1237597600680.html
Martin Niemöller, símbolo da resistência aos nazistas - 1933
"Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar."Fonte: Último Segundo - iG @ https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/ciro-protesta-com-poesia-mas-erra-o-autor/n1237597600680.html

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Sobre o que nunca foi segredo

Há um tempo que venho pensando em como me envolver com a causa LGBTQ+, em como ajudar pessoas que possam estar passando por problemas para se assumir, ou mesmo para aceitar a si próprio. Tentei encontrar aliados por aqui na cidade, mas não conheço muita gente (antisocial que sou), e as pessoas gostam do conforto de não precisar militar a respeito de nada. Resolvi então fazer o mais básico, aparecer, dizer que estou aqui, e quem eu sou.
A letra que me representa na sigla, ainda hoje é bastante controversa. Se por um lado temos a liberdade de nunca precisar sair do armário quando em um relacionamento hétero, por outro, ao nos assumirmos corremos o risco de sermos rechaçados no nosso próprio meio, e no caso de nós mulheres (junte a isso o machismo), assediadas por homens héteros afim de realizar fantasias sexuais com suas parceiras.
Depois de várias conversas a respeito com meu esposo, decidi que eu deveria sair do armário, que entrei sem querer ao me comprometer com ele. Minha orientação sexual nunca foi segredo, mas ao entrar na minha nova família, não foi algo que quis revelar para os meus sogros de gerações tão distantes da minha. Nem pessoas do nosso convívio, que com o tempo se mostraram homofóbicas. E eu permaneci calada, até agora. Mas, ao continuar assim, eu não estou apenas negando parte do que me faz eu, como também estou nos ferindo como causa.
Acredito que não tenho nada a perder nesse momento em minha vida, e estou cansada de ficar em silêncio. Eu nunca tive, e nunca terei vergonha de ser quem eu sou. E se alguém tem qualquer problema com isso, eu sinto muito. Mas não diz respeito a mim, só a você.
Sempre acreditei que preconceito pode ser uma questão de pura ignorância, e portanto, fácil de consertar. Nesse caso, eu aceito perguntas a respeito da causa LGBTQ+, contanto que sejam feitas com bom espírito, e de dúvidas genuínas. E se você faz parte da sigla, e pode se manifestar, não fique em silêncio. Quanto mais de nós vier à tona, mais a sociedade terá a oportunidade de entender, que não há nada de errado conosco. Que somos iguais aos demais, e que por amar quem amamos, não dá direito a ninguém de nos odiar. Porque ser LGBTQ+ não é só sobre com quem nos relacionamos sexualmente, é sobre uma luta pelo direito ao amor. O direito, que sim, deve ser universal, de ser amado e de amar.
Pretendo escrever muito mais sobre esse assunto no futuro. Principalmente nesses tempos obscuros que estamos vivendo.

Eu preciso agradecer a pessoa mais importante na minha vida, por sempre me dar apoio, e por aceitar essa causa comigo. Eu queria que todo mundo fosse um pouco como você Edson.

So, I'm here, and I'm queer!

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Mudança de hábito

Há uns treze anos atrás eu larguei a escola logo no início do ano letivo. Era a segunda vez que isso acontecia. Mas era a primeira vez que eu sabia o motivo: depressão! 
Nessa época, falar sobre depressão não era algo aceitável. Era quase como sair do armário nos dias atuais. Exceto o ódio. Diziam que era porque você não tinha Deus no coração, e coisas semelhantes. Como sou ateia, algumas pessoas poderiam até imaginar que tinham razão. 
Você ouvia histórias sobre casos mais extremos. Como de pessoas que ficavam loucas, ou perdiam o cabelo, ou ainda, adoeciam tanto fisicamente, a ponto de serem finalmente levadas a sério. Uma lástima!
Nesse ano, eu estava estudando a noite, e uma professora de Educação Física resolveu, após tocar no assunto, fazer um trabalho em sala sobre depressão. Foi ela anunciar o que queria, eu já entrei em pânico.
Fomos divididos em grupos de quatro ou cinco pessoas, não recordo bem. E o bendito trabalho consistia em fazer uma breve apresentação sobre depressão, valia encenar ou escrever uma poesia, algo criativo e artístico. Na época eu escrevia, pra caramba (pena quantidade não querer dizer qualidade!). Inclusive, o que teimosamente eu chamava de poesia. Mas eu travei. O tema era pessoal demais pra mim, e eu entrei em parafuso. Tínhamos quinze minutos ou meia hora (faz tempo, não recordo tão bem) para bolar algo. Eu não consegui criar nada, e pra mim, eu também prejudiquei o grupo com meu estado. Afinal, estava muito alterada, e eles tentavam me acalmar o tempo todo.
Resultado: toda a turma criou algo, apresentou com sucesso, e ao questionar ao meu grupo sobre a nossa apresentação, e ser informada que não tínhamos nada, a professora olhou pra mim desapontada e falou diretamente comigo (ou ao menos foi o que percebi na época) que não esperava isso de mim, ou algo do tipo.
Saí de lá em prantos. Não creio que a aula dela era a última, mas saí correndo do colégio. Olhos tão anuviados que não enxergava nada à minha frente. Eu tinha mania de querer vagar sem sentido, quando tinha crises. E nessa noite, pedi pro Ramon e o Alysson me acompanharem (confesso que não recordo se saímos andando ou não). Chorei, reclamei, queria mesmo morrer. E resolvi então que não queria mais ver os colegas que eu tinha prejudicado, e muito menos a professora, a quem eu tinha desapontado, e que não tinha tido a sensibilidade de perceber o motivo. Pensando bem, não é como se ela tivesse uma bola de cristal, né?
Contar isso a alguém, e pedir ajuda estava completamente fora de questão! Por isso que mesmo sendo uma excelente aluna, à época, eu largava a escola assim que tinha uma crise, e os professores ficavam sem pista de porquê. Era um estigma que eu não estava pronta para mostrar ao mundo. E também não queria que sentissem por mim, e me favorecessem por isso de alguma forma. E foi assim que eu passei os próximos quatro ou cinco anos. Até ser vencida pelo cansaço e me render à prova do Supletivo. Lembro que não ter terminado o ensino médio, só acrescentava ainda mais à minha depressão. Mas eu queria realmente aprender, por isso resistia tanto ao Supletivo. Mas a melhor coisa foi tirar esse entrave do meu caminho. Melhorou bastante minha ansiedade, e minha autoimagem.

Não sei por que exatamente, mas senti vontade de contar essa história. Isso foi há muito tempo, e de lá pra cá muita coisa finalmente mudou. Apesar de que admitir que tenho depressão, e que preciso aprender a conviver com isso, seja algo muito, mas muito recente em minha vida. Hoje é bom saber que eu não preciso encarar isso sozinha. E é bom ter o apoio e a compreensão das pessoas que me amam, e estão ao meu lado.
Se você também sofre de depressão, saiba que não há vergonha nisso. E que você não precisa ter motivos no mundo real pra justificar esses sentimentos e emoções.
Uma a cada quatro pessoas sofre de depressão no mundo. Umas mais severas ou leves do que a sua. Mas você com certeza conhece mais alguém no mesmo estado que o seu. As vezes essas pessoas só não admitem, portanto, não procuram ajuda, e nada muda.
Os tratamentos para depressão são os mais variados possíveis, basicamente qualquer coisa pode funcionar como terapia. Inclusive hobbies, fazer novas amizades, estar em contato com animais e a natureza, fazer trabalho voluntário, expressar-se criativamente, terapia com psicólogo, e em alguns casos, até tomar antidepressivos pode funcionar. Mas uma coisa que nunca vai fazer você melhorar é sofrer sozinho! O isolamento é como combustível para a depressão, e eu demorei mais do que deveria pra entender isso.
Admitir que tem algo errado, e não ter receio de procurar ajuda e apoio dos que o amam, é essencial para começar a se sentir melhor. Acredite em mim!

Eu quero aqui agradecer à minha família, meus irmãos, minha vó e ao meu Edson e meus sogros, por se importarem e cuidarem de mim. É por conta de vocês que eu tenho vontade de seguir.

E se alguém precisa de ajuda, eu posso tentar guiá-los na busca de apoio. E saiba que você vale muito!