domingo, 27 de outubro de 2019

Equilíbrio

Semana passada decidi por excluir permanentemente minhas contas de Facebook e Instagram. Por motivos políticos (o mal que essas redes sociais causam à sociedade civil de vários países nos seus processos eletivos) e pela minha saúde mental, estou na busca de menos interações virtuais, e mais reais (no sentido de presencial). Até publiquei uma notinha avisando, e pedi backup de minhas publicações às plataformas. Porém, no mesmo dia já desisti e retirei a nota. Eu mal uso essas redes sociais. O que me impede de efetivamente viver essas relações mais reais, é justamente outra plataforma, tão danosa quanto às citadas, o Youtube.
Daí eu fico aqui pensando a respeito. Minha geração não cresceu com internet em casa, muito menos num aparelho móvel que não largamos por nada nesse mundo. Eu só tive contato com internet em 2004, eu tinha então 16 anos. E durante esses quinze anos, a internet foi palco de meu crescimento, eu não mais separei minha vida dela. Conheci pessoas, conheci ideias, compartilhei experiências e criações, aprendi sobre quase tudo que sei hoje através de leituras e vídeos. Aprendi inglês, e até arranho na leitura do espanhol. Descobri movimentos e pessoas, que de outra forma, não teria sabido a respeito. Ou seja, eu sei o valor que a internet tem como fonte de informação, e como chave para crescimento pessoal. Mas ao mesmo tempo, sinto que uma hora, mesmo algo que te fez tão bem, pode também te fazer muito mal. Tanto, a ponto de ser uma boa ideia apenas ficar sem completamente. E agora eu estarei falando sobre comportamentos de dependência e compulsão. Então segurem-se, e vamos lá!
Na adolescência, eu costumava trocar a noite pelo dia pra poder usar a internet. Passava a madrugada toda conversando com as pessoas (pessoas essas que conhecia pessoalmente, e com quem conversava no mundo real também) pelo MSN (programa de mensagens da Microsoft). Nessa época tinha muita curiosidade sobre religião, já que até bem pouco tempo era católica. Pesquisava sobre outras religiões, como também o catolicismo. A internet brasileira não era tão desenvolvida como hoje, e a gente ainda não tinha acesso às redes sociais. E então eu fui convidada para o Orkut (rede social similar ao que o Facebook é hoje) e a experiência de usar a internet começou a mudar. Agora tinha contato com pessoas de qualquer lugar do país, e podia procurar essas pessoas por interesse em comum, já que existiam as comunidades, que eram o equivalente aos grupos do Facebook, mas, mais parecido com um fórum de internet. Cada publicação nesse fórum ficava aberta a discussões, e você podia interagir com as pessoas alí, aprender sobre o que estava sendo debatido. Tinha de tudo! E até o Google retirá-lo do ar, haviam soluções que você não encontraria em outro lugar na internet.
O Youtube surgiu meio tímido. Uma plataforma de vídeos online. Era legal, mas sem muita utilidade prática. A internet aqui não era grandes coisas, e um vídeo precisava carregar por alguns minutos antes que pudéssemos finalmente vê-lo. A qualidade desses vídeos também não era das melhores, muitas limitações técnicas. Não era um site rentável, e permaneceu assim por algum tempo, mesmo depois de ser comprado pelo Google. Não haviam propagandas, e o Google não sabia como monetizá-lo. Tudo foi mudando gradativamente, e hoje é o que é, inclusive criando uma nova profissão: youtuber. Minha queixa com o Youtube é que, uma vez que abro o aplicativo no meu celular, entro num vórtice que me arrasta pelo resto do dia, principalmente se eu não tiver nada do curso pra fazer. Quando me dou conta estou assistindo vídeos que se você me convidasse pra ver, eu certamente recusaria. Mas estou lá, perdendo meu tempo. Perdendo experiências no mundo real. Evitando de fazer o que necessito até, pra ficar completamente hipnotizada pela telinha em minha frente. 
Não serei ingrata, o Youtube já me ajudou bastante. Acho que é a plataforma em que o conhecimento adquirido, ou consultado, foi de mais valor pra meu crescimento. Eu não seria a mesma pessoa num mundo sem ele. Mas sinto que nesse momento de minha vida, mais me segura do que me deixa crescer. É uma compulsão, eu já acordo pensando em pegar o celular e ver vídeos, quando to em casa. Não quero fazer o que preciso, não quero ficar sem fazer nada. Sem ele, preferiria dormir o dia todo. Por isso considero um vício.
Inúmeras vezes já considerei não mais usar smartphone, talvez até ter um flip, só pra convencional e velha forma de comunicação mesmo. Me sinto tão livre só de pensar na possibilidade. Mas vem também a ansiedade de não ter mais as facilidades que ter um aparelho com móvel com internet traz. Principalmente pelo uso de Whatsapp. Toda vez que trago essa ideia à tona, o Edson protesta. O Whatsapp a forma de comunicação mais fácil que temos. E eu ainda uso o aparelho para ouvir música ou audiobooks durante as viagens, pra consultar alguma coisa ou ler documentos. Além de ver avisos do curso, receber e-mails... Enfim, me seria limitante não tê-lo. Mas em casa não tenho necessidade de usá-lo. Quase não faço nada das coisas acima, e tem o computador pra poder fazer algo necessário. Mas como evitar de usá-lo apenas em casa?! Porque esse é o meu problema, o uso em casa. Quando não estou em casa, eu mal uso o aparelho. A não ser pra ver a hora, ouvir música pra não enjoar na viagem, e conferir alguma coisa, mas sempre muito rapidamente.
Pedi pro Edson me ajudar com isso. Chamar minha atenção se eu estiver vendo Youtube, esconder o celular de mim... Assim que ele começou a fazer isso, já vi que não daria certo. Eu fiquei querendo me esconder pra usar. E mesmo ele fazendo o que pedi pra me ajudar a controlar, eu ainda usei mais do que desejava. Então, resolvi que enquanto estiver em casa vou evitar de pegá-lo, e vou fazer outras coisas para não tocar no mesmo. Inclusive deixando-o descarregado durante esse período. Por isso estou aqui escrevendo essa publicação ao invés de estar redigindo o relatório que preciso. Isso aqui é fruto de frustração, principalmente com a compulsão pelo Youtube. 
Desejem-me sorte!

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Manifesto

Senti a necessidade de vir aqui dar notícia do que tem se passado. Já que tanta coisa mudou em minha vida, principalmente em minha rotina. Ainda estou no início dessa grande transformação, é verdade. Mas o impacto dessa mudança tem reverberado em todos as áreas da minha vida. Se escrevesse esse texto semana passada, quando tive crises de ansiedade que levaram a uma crise de depressão forte, quando a minha perspectiva de tudo que está acontecendo era apenas negativa, esse texto estaria em termos menos otimistas. Que bom que escrevo agora, quando estou me sentindo mais esperançosa.

Apesar de tudo que está acontecendo, a nível mundial, nacional, e mesmo local, eu me sinto esperançosa, com grande ímpeto de estudar e trabalhar para realizar o que idealizei ao decidir voltar a estudar, e esse específico curso, que foi o único curso acadêmico que me fez desejar as salas de aula. Pode ser que esteja em uma leve mania essa semana, por isso quero registrar, pra lembrar em momentos mais sombrios, o que preciso para me mover:

Lembrar de ideias maiores do que meu ego, de problemas maiores que qualquer um que eu possa ter individualmente, e de que eu tenho um papel a cumprir como parte desse mundo. Que é de fazer o meu melhor, assim como deveríamos todos, para, não só viver de forma sustentável, mas ajudar a outras pessoas, a enxergarem e também fazerem o seu melhor, para quem sabe, deixarmos um mundo mais promissor para as futuras gerações, em oposição ao que temos hoje como promessa nebulosa de um não futuro. É não esmorecer com as batalhas perdidas, com as forças contrárias à nossa luta por igualdade, liberdade e progresso real. Nunca desistindo de resistir, e despertando mais pessoas para essa realidade de que sim, nós somos responsáveis por nosso destino, e não só temos direito a um futuro melhor, como dever de não cruzarmos os braços, mas arregaçar as mangas. Pois não há movimento sem ação! Enquanto há lutas políticas por interesses econômicos de curto prazo, e para poucos, devemos continuar focados na saúde do nosso planeta, da nossa relação com ele, nossa relação uns com os outros, e consequentemente, da nossa própria saúde. E para isso, andemos bravamente na direção contrária, pensemos a longo prazo e além de nós mesmos, lutemos pelo que acreditamos, e ao longo dessa jornada, que consigamos mais agentes para essa luta, que não é violenta, que não visa perda de lado algum, que só acrescenta, e que não fecha os olhos pra ninguém! De braços dados, trabalhemos por um MUNDO MELHOR PARA TODOS (sem exceção)!

Sugestões:

Assistam ao documentário "Ser Tão Velho Cerrado"
https://www.netflix.com/br/title/81038976

Leiam o livro (livre pra download) Agroflorestando o mundo de facão a trator
https://moodle.ufsc.br/pluginfile.php/1935293/mod_resource/content/1/agroflorestando-omundo.pdf

Leiam também Atenção Plena – Mark Williams
http://lelivros.love/book/baixar-livro-atencao-plena-mark-williams-em-pdf-epub-e-mobi-ou-ler-online/ e pratiquem meditar.

Se possível, façam terapia, mesmo que achem que não precisam.

domingo, 11 de agosto de 2019

Dança

Eu deveria escrever uma poesia, pois estou frustrada, e é isso que faço quando estou frustrada e não posso/não quero falar sobre o quê. Pra quem lê esse blog (alguém lê?!), não é novidade que sofro de depressão e ansiedade, entre outros males. E a pessoa comum, não ciente de que sofre de algo similar, ou que por alguma razão do universo, realmente pode se dizer mais ou menos "normal", não faz ideia que há pessoas que sofrem, sem mesmo ter motivo. Mesmo quando tudo dá certo. Mesmo quando você não tem nada do que reclamar. E é esse o momento que estou vivendo. A maioria das pessoas que me conhece não sabem, mas eu estou fazendo Agroecologia no IFS (Êêh!), frequentando aula há alguns dias já. E desde antes da inscrição no vestibular era o que eu mais desejava esse ano. Aquela coisa toda de alinhamento dos meus planos pro futuro e tudo mais. Correndo o risco de estar me repetindo, fiz um curso com o Otávio Torrão de manejo agroflorestal, e finalmente, depois de um ano querendo, entrei para o mutirão agroflorestal organizado por pessoas maravilhosas que tive o grande prazer de conhecer por lá. Não só eles, como todo mundo que conheci ou interagi desde então, me faz sentir muito privilegiada de estar presente, de participar... Conhecer, interagir, ser ajudada e apoiada por tanta gente legal, me faz sentir muito grata. E eu espero poder retornar toda essa boa energia. Tudo que eu queria era que meu estado mental e emocional atual correspondesse a toda essa boa energia que vêm sendo depositada em mim. Eu me sinto uma farsa, tenho medo de decepcionar as pessoas, de não dar conta, de estar sendo chata e inconveniente... E eu to beeem desesperada a respeito disso. Eu converso com as pessoas, sorrio. Tento passar uma energia positiva e mostrar meu prazer de estar alí, compartilhando aquele momento com elas. E isso tudo é verdade, eu não estou fingindo nada naquele instante. Mas assim que estou só, meu peito fica pesado. Eu me arrependo das interações que mantive, das coisas que falei, não falei, fiz ou não fiz. Eu preciso de ajuda! Eu estou me sentindo tão errada, e só! Por quê?! Por que minha mente dá tantas voltas pra me sabotar?! Que Jung me ajude! Quero fazer as pazes com minha sombra, me aceitar e apenas ser quem eu supostamente devo ser. Por que esse processo precisa ser tão solitário e doloroso? Quando eu vou me dar por satisfeita?!
Justificando o título: eu não sei lidar com as pessoas. Tudo me intimida! E essa dança social, tem mais passos do que posso dar conta. Eu só queria conversar com alguém que tivesse paciência pra me ouvir, e não julgasse as sandices que saem de minha mente. Se eu não falar ou escrever, sinto que vou explodir. Sinto que esses pensamentos vão me enlouquecer. Eu deveria só me trancar num quarto e falar em voz alta por horas! Por favor, que eu tenha uma quantidade de sanidade o suficiente pra passar desse momento inicial, e tão novo pra mim. Pra que eu possa ser quem eu devo ser.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Tabular

As vezes eu sinto o impulso de escrever aqui, mas ainda sem saber exatamente o quê. Daí me vem o título na mente, como hoje, e aí tudo desenrola a partir desse momento. Vamos fazer um apanhado do que aconteceu em minha vida nos últimos dias, e que está sendo determinante de meu futuro.
As vezes noto, que mesmo alguém como eu, que não tem muita interação com outras pessoas, e mal sai de casa, tem muito o que partilhar. O meio pelo qual faço isso ultimamente é pela internet, mas teve um tempo que eu estava afastada até mesmo das redes sociais. Foi um tempo válido, como minha prima Dayanara me disse, os processos internos são tão importantes quanto os externos. Concordo! Comecei fazendo uma conta no Instagram, era só pra ter referência de poses pra poder treinar desenho, daí comecei a partilhar meus rabiscos. Voltei pro Facebook, deletei minha conta, acho que mais de uma vez. É a rede social mais problemática pra mim depois do Twitter, no qual viciei, e larguei de vez também. Muito tóxico!

De lá pra cá, meu interesse por desenho e pintura ficou meio adormecido. Mas a preocupação com meio ambiente, crueldade animal, e alimentação saudável se intensificou. Ainda se intensifica hoje, principalmente durante esse governo. Pois bem, essa mesma prima que mencionei antes, viu esses meus interesses e pensou que seria uma boa ideia me falar sobre o curso de Agroecologia do IFS, me impulsionar, não só a fazer a prova, mas a correr atrás de meus sonhos, e validar minhas experiências. Eu fiz o vestibular, passei, mas não pude me matricular por ter cometido um erro na hora do cadastro, Nesse momento, talvez ainda possa. Mas a verdade é que agora eu quero me voltar mais pra prática do que para a teoria. No último fim de semana fiz o curso de manejo de agrofloresta com o Otávio Torrão, em São Cristóvão. Conheci muita gente legal, com projetos em alinhamento com essas preocupações, fiquei fascinada com as pessoas, e também com a quantidade de conhecimento prático do curso. É muito bom ter a oportunidade de aprender algo fazendo, ao invés de ver um vídeo, ou ler a respeito.
 
Tive que fingir que acreditava que podia, e no final das contas, não é que realmente posso?!
A longo prazo tenho projetos ambiciosos de trazer esses conhecimentos para as pessoas da roça, que são quem mais precisam, e para as novas gerações, para que saibam como agir de acordo com as necessidades e desafios que, o nosso estilo de vida até aqui, lhes trouxe e trará.

Acreditar em si mesmo é difícil, mas não impossível. E comemorar cada vitória, como me falou um amigo que conheci no curso, é de extrema importância pra se manter no rumo, sem desanimar. Então isso aqui é também parte de uma celebração. A celebração de todos os privilégios, oportunidades e chances que me fizeram chegar exatamente aqui, nesse momento, e com essa vontade de devolver todo o amor, felicidade e carinho que a vida me proporciona. Que eu saiba agir de acordo. Agradeço ao cosmos, e a todas as pessoas que estiveram e estão em minha vida.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Crescendo

Estava lendo a introdução de um livro sobre veganismo, quando a história da autora me lembrou de algo que eu queria falar há muito tempo aqui no blog. De como os relacionamentos mudam porque nós mudamos. E não estou falando sobre relacionamentos afetivos não, qualquer um, até familiares. Muda a dinâmica, o engajamento...

Eu sou casada com o Edson, e posso assegurar que há sete anos atrás, quando iniciamos esse relacionamento, ele e eu éramos pessoas totalmente diferentes de quem somos hoje. A base continua a mesma, pois acho que caráter é algo inerente ao ser humano. Mas nós evoluímos e crescemos muito juntos. Nos ajustamos, não um ao outro, mas a nós mesmos. É que na realidade, o ser humano tende a contradições, e agir em desacordo com o que acredita é mais comum do que o que nos parece. E nesse processo de descobrir e corrigir falhas, que eu acredito ser um trabalho constante, nós nos ajudamos muito.

Há alguns meses eu comecei a sentir que nós não estávamos na mesma página, e o assunto era alimentação. Eu deixei de comer carne, mas ainda consumia derivados de leite e ovos, porém desejava transicionar para uma dieta livre de crueldade animal. E alguns conflitos aconteceram. Como é de se esperar, ele se preocupava com minha saúde. E tinha razão, como vegetariana eu me alimentava muito mal. Eu me garantia no consumo de ovos e queijo para qualquer refeição, ao ponto de não me importar com vegetais em geral. Comecei parando de comer ovos, e logo era queijo em todas as refeições. Eu estava triste, mal alimentada, e ainda não me sentia em paz com minha consciência. Foi quando comecei a pesquisar mais sobre veganismo, a conversar mais com ele a respeito, e a colocar algumas receitas em prática. Tudo mudou a partir daí. Edson começou a engajar com conteúdos desse tipo, e a estudar reduzir seu consumo de carnes e derivados de leite. Hoje já estamos há mais de um mês de quando tudo se iniciou, e ele ainda come ovos (daqui do sítio) e queijo que sua mãe sempre deu, e isso porque ainda não é fácil para nós, fazer queijo vegano. E também pelo receio da reação dos meus sogros com uma dieta mais restritiva do Edson. Até hoje eles não aceitam a minha. Nossas refeições nunca foram tão ricas, variadas e deliciosas, sem contar como são muito mais saudáveis do o que costumávamos comer antes. Quanto a consumo, nós tentamos comprar de acordo com o que acreditamos. Cometendo alguns erros no caminho, mas agora eu não me sinto mais angustiada, porque o tenho ao meu lado, pensando e vivendo de acordo com o que sentimos que é a forma certa de viver, estamos fazendo o nosso melhor.

A resistência inicial era mais por desconhecimento que por filosofias diferentes. E sendo assim, tudo foi resolvido com um pouco de educação a respeito. Eu não impus nada a ele, como não posso fazer a nenhuma outra pessoa. O que posso fazer é despertar interesse. Então, apenas disse minhas razões, mostrei alternativas, e ele concordou comigo. Mas eu sei que isso é um privilégio, e eu sou muito grata e feliz por tê-lo sempre ao meu lado descobrindo coisas, e tentando sermos versões melhores de nós mesmos juntos.

Acredito que seja nesse caminho que algumas pessoas se afastam, quando crescem separadas, de maneira individual, e quando há resistência e falta de interesse no processo do outro. Nós somos uma "metamorfose ambulante". Quem está ao nosso lado vai nos ver mudar, seja para melhor ou pior, julgado a partir da vivência e crescimento do outro. Para continuar relacionamentos em harmonia, nós acabamos sempre comparando nossas crenças ao do outro. Algumas questões passam, mesmo com diferenças irreconciliáveis, afinal ninguém vai terminar com os pais. Mas em geral, é assim que amigos se afastam, relacionamentos familiares são restritos a obrigações, e casais se separam. Lógico que outro zilhão de elementos podem fazer parte de decisões assim, relações humanas são muito complexas! A gente se apaixona todos os dias pela pessoa ao nosso lado. Por atos, pensamentos, cumplicidade... E se isso não acontece, vamos ficando mais distantes, e a cada dia fica mais difícil ouvir e ver o outro, e nos enxergar nele. Como conclusão posso dizer, não descuide de suas relações, e não descuide de si mesmo. Seja curioso, e se ama a pessoa, ao menos tente ouvir sobre suas paixões, e se não vai fazer mal a ninguém, experimenta. O pior que pode acontecer é você descobrir que seu lugar não é ao lado dessa pessoa. Já o melhor que pode acontecer, é você se apaixonar outra vez pela mesma pessoa.

P.s.: Se a sua, ou seu, ente querido está engajando em questões prejudiciais a outras pessoas, ou a ele mesmo, esteja atenta(o) e ao menos tente fazê-lo notar isso. Mas você não é a/o responsável por salvar ninguém. Para resolver um problema, primeiro a pessoa deve perceber e admitir que tem um. Não o abandone, mas ofereça apenas o que pode dar, sem que isso prejudique a si mesmo. Seja consciente de seus limites, e respeite-os.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Ninguém escolhe estar errado

Vivemos um momento da história que é único em muitos aspectos, mas que em outros é uma repetição de tudo que já vivenciamos como sociedade moderna. A bipolaridade política/social não é algo novo, nem na História recente da humanidade, e mesmo assim, a gente não parece entender o mal que faz quando nós calamos o outro a grito. O abismo que criamos entre nós, faz parecer que não somos mais capazes de conviver com a diferenças. Mesmo os que pedem por mais tolerância, são por vezes tão intolerantes quanto. Dá a impressão que deveríamos por bem separar o mundo, e cada um que vá pro seu lado, viver sua utopia.

Quem não gosta de ter suas ideias validadas por alguém? As palavras chegam a doer fisicamente quando se opõem aos nossos pensamentos. Mas a gente deve lembrar que ninguém simplesmente escolhe estar errado, além disso, nós pensamos estar certos em todo e qualquer momento de nossas vidas, até descobrirmos que não. Então, não deveríamos ser mais compreensivos com quem discorda da gente? Fazer parte de um diálogo com partes opositoras é como estar em uma zona de guerra em que as armas são palavras. Se o intuito é tentar fazer o outro repensar o assunto. Machucá-lo só vai fazê-lo sentir mais distante de você, e mais empenhado a também te machucar. E há tanta gente que já sofreu tanto, que não tem mais paciência para ouvir, quando o que o outro está dizendo desafia sua existência e liberdade.

Vamos partir do pressuposto de que somos todos pessoas com bons intuitos, e queremos um mundo melhor, só que por métodos diferentes. Então nos basta agora exercitar nossa empatia: se eu fosse essa outra pessoa, com as experiências que ela viveu, com as oportunidades (ou falta de) que ela teve, como seriam meus pensamentos? Talvez bem similares aos dela. E então, vamos para outro nível de empatia. O que eu quero de melhor pra mim, eu devo querer para todo mundo. Se você é alguém que deseja o melhor pra si e para as pessoas que ama, por que não estender esse desejo para todas as pessoas, independente de quem elas são? É o certo a se fazer!

Para as pessoas religiosas que porventura lerem esse texto, Jesus deixou apenas ensinamentos de amor e tolerância. Para uma vertente religiosa (a cristã) que as escrituras recentes falam tanto de amor e misericórdia, como pode ser aceitável carregar tanto ódio pelo diferente, e como pode-se desumanizar tanto o outro? Jesus não foi o homem que defendeu uma mulher que seria morta à pedradas por ser supostamente adultera? E não foi ele que perdoou seu próprio discípulo que o traiu? Não foi ele que perdoou o ladrão crucificado com ele? Que perdoou seus executores? Quem você é então, diante de uma figura tão poderosa de sua religião, para condenar quem quer que seja?!

Presa em realidades alternativas

Hoje eu não tive um dia ruim. Tudo continua ok. Nada de particularmente errado ou ruim acontecendo no meu mundo, mas eu estava naquele lugar. Quando eu falo "estou naquele lugar" significa que não consigo me livrar de pensamentos ruins que vêm sem nenhum convite, e permanecem por pura teimosia. Em momentos assim você se sente incapaz em muitos sentidos. Mas em geral, incapaz de ser feliz. Viver dá muito trabalho! Quem me conhece sabe que não tenho porque ter esses pensamentos. Minha vida é muito boa, e a vida e as pessoas nela, sempre foram muito gentis comigo. Eu não sofri muito enquanto crescia. A única coisa que posso realmente "reclamar" que sofri foi um péssimo relacionamento com minha mãe, que durou enquanto ela viveu, e claro, como sou mulher, assédio desde que me entendo como gente.

Já tentei inúmeras vezes criar fórmulas pra sair desse estado mental. Anotei até um checklist para dias assim. Que nunca mais olhei desde que escrevi. O fato é que em dias como hoje, eu não lembro, nem chego a pensar em condutas que possam me tirar dessa zona sombria. Ao menos é o que sempre acontece comigo. Eu esqueço completamente de todas as minhas resoluções para uma vida mais plena. E se encontro qualquer dificuldade nesse dia, por menor que seja, a vontade é de deitar no chão e esquecer como respirar. É até estúpido dizer isso pra alguém que talvez nunca tenha passado por isso. E que, pior, tenha reais dificuldades em sua vida, e leve a vida normalmente, como um ser humano médio deveria ser. Mas todos temos as nossas lutas. E a gente não pode esquecer disso.

Eu costumava pensar que só eu tinha esses sentimentos. Quando a gente sofre, sempre se coloca num estado de solidão. Mas se a gente olhar ao nosso redor, vai notar muita gente lutando as mesmas batalhas sozinhos. Eu tenho vários problemas com meu ego. Um deles é achar que posso consertar o mundo, quando não consigo nem cuidar de mim mesma. Quando eu me nego, ou não consigo mesmo, ajudar alguém que amo, ou qualquer pessoa do qual o sofrimento eu tenho conhecimento. Ou pior ainda, quando penso, muito egocentricamente, que de qualquer forma incomodei, desapontei ou prejudiquei alguém. Bem, é nesse momento que é mais fácil cair nessa espiral. E não precisa ser nada grave.

A parte positiva de envelhecer, e já ter passado por isso tantas vezes, é saber que passa. Tudo passa,  até momentos ruins. Na perspectiva de alguém que já viveu um pouquinho, eu sei que nem tudo tem a importância que a gente costuma dar. E que com o tempo, outras coisas vão importar muito mais. Aquilo com o qual a gente se preocupa hoje, não será nem uma fração de memória em nossa mente no futuro. Olhar pra trás é se compadecer com o eu do passado e pensar em todos os momentos que deixamos de viver porque estávamos pré-ocupados. Minha esperança é aplicar esse conhecimento em meu benefício sempre que possível, sempre que eu consigo notar esses padrões, e me tirar dessas situações, cada vez mais rápido.

Não, eu não sou uma pessoa ruim, nem sem valor. Sim, eu posso ser feliz, e sim eu mereço amor! Você que estiver lendo isso, é tão merecedor de amor, como qualquer outro ser nesse planeta. Comece por você mesmo. Ame-se!