segunda-feira, 18 de junho de 2018

Mudança de hábito

Há uns treze anos atrás eu larguei a escola logo no início do ano letivo. Era a segunda vez que isso acontecia. Mas era a primeira vez que eu sabia o motivo: depressão! 
Nessa época, falar sobre depressão não era algo aceitável. Era quase como sair do armário nos dias atuais. Exceto o ódio. Diziam que era porque você não tinha Deus no coração, e coisas semelhantes. Como sou ateia, algumas pessoas poderiam até imaginar que tinham razão. 
Você ouvia histórias sobre casos mais extremos. Como de pessoas que ficavam loucas, ou perdiam o cabelo, ou ainda, adoeciam tanto fisicamente, a ponto de serem finalmente levadas a sério. Uma lástima!
Nesse ano, eu estava estudando a noite, e uma professora de Educação Física resolveu, após tocar no assunto, fazer um trabalho em sala sobre depressão. Foi ela anunciar o que queria, eu já entrei em pânico.
Fomos divididos em grupos de quatro ou cinco pessoas, não recordo bem. E o bendito trabalho consistia em fazer uma breve apresentação sobre depressão, valia encenar ou escrever uma poesia, algo criativo e artístico. Na época eu escrevia, pra caramba (pena quantidade não querer dizer qualidade!). Inclusive, o que teimosamente eu chamava de poesia. Mas eu travei. O tema era pessoal demais pra mim, e eu entrei em parafuso. Tínhamos quinze minutos ou meia hora (faz tempo, não recordo tão bem) para bolar algo. Eu não consegui criar nada, e pra mim, eu também prejudiquei o grupo com meu estado. Afinal, estava muito alterada, e eles tentavam me acalmar o tempo todo.
Resultado: toda a turma criou algo, apresentou com sucesso, e ao questionar ao meu grupo sobre a nossa apresentação, e ser informada que não tínhamos nada, a professora olhou pra mim desapontada e falou diretamente comigo (ou ao menos foi o que percebi na época) que não esperava isso de mim, ou algo do tipo.
Saí de lá em prantos. Não creio que a aula dela era a última, mas saí correndo do colégio. Olhos tão anuviados que não enxergava nada à minha frente. Eu tinha mania de querer vagar sem sentido, quando tinha crises. E nessa noite, pedi pro Ramon e o Alysson me acompanharem (confesso que não recordo se saímos andando ou não). Chorei, reclamei, queria mesmo morrer. E resolvi então que não queria mais ver os colegas que eu tinha prejudicado, e muito menos a professora, a quem eu tinha desapontado, e que não tinha tido a sensibilidade de perceber o motivo. Pensando bem, não é como se ela tivesse uma bola de cristal, né?
Contar isso a alguém, e pedir ajuda estava completamente fora de questão! Por isso que mesmo sendo uma excelente aluna, à época, eu largava a escola assim que tinha uma crise, e os professores ficavam sem pista de porquê. Era um estigma que eu não estava pronta para mostrar ao mundo. E também não queria que sentissem por mim, e me favorecessem por isso de alguma forma. E foi assim que eu passei os próximos quatro ou cinco anos. Até ser vencida pelo cansaço e me render à prova do Supletivo. Lembro que não ter terminado o ensino médio, só acrescentava ainda mais à minha depressão. Mas eu queria realmente aprender, por isso resistia tanto ao Supletivo. Mas a melhor coisa foi tirar esse entrave do meu caminho. Melhorou bastante minha ansiedade, e minha autoimagem.

Não sei por que exatamente, mas senti vontade de contar essa história. Isso foi há muito tempo, e de lá pra cá muita coisa finalmente mudou. Apesar de que admitir que tenho depressão, e que preciso aprender a conviver com isso, seja algo muito, mas muito recente em minha vida. Hoje é bom saber que eu não preciso encarar isso sozinha. E é bom ter o apoio e a compreensão das pessoas que me amam, e estão ao meu lado.
Se você também sofre de depressão, saiba que não há vergonha nisso. E que você não precisa ter motivos no mundo real pra justificar esses sentimentos e emoções.
Uma a cada quatro pessoas sofre de depressão no mundo. Umas mais severas ou leves do que a sua. Mas você com certeza conhece mais alguém no mesmo estado que o seu. As vezes essas pessoas só não admitem, portanto, não procuram ajuda, e nada muda.
Os tratamentos para depressão são os mais variados possíveis, basicamente qualquer coisa pode funcionar como terapia. Inclusive hobbies, fazer novas amizades, estar em contato com animais e a natureza, fazer trabalho voluntário, expressar-se criativamente, terapia com psicólogo, e em alguns casos, até tomar antidepressivos pode funcionar. Mas uma coisa que nunca vai fazer você melhorar é sofrer sozinho! O isolamento é como combustível para a depressão, e eu demorei mais do que deveria pra entender isso.
Admitir que tem algo errado, e não ter receio de procurar ajuda e apoio dos que o amam, é essencial para começar a se sentir melhor. Acredite em mim!

Eu quero aqui agradecer à minha família, meus irmãos, minha vó e ao meu Edson e meus sogros, por se importarem e cuidarem de mim. É por conta de vocês que eu tenho vontade de seguir.

E se alguém precisa de ajuda, eu posso tentar guiá-los na busca de apoio. E saiba que você vale muito!


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Solidão

Estar sozinha me trás emoções ambivalentes. Ao mesmo tempo que anseio, temo. Desde que me entendo por gente eu aprecio ficar sozinha. Sempre associado com um tempo pra mim, pra ouvir meus próprios pensamentos, tomar meu tempo pra resolver o que é preciso, ou só fazer coisas sem ser julgada, como dançar pela casa inteira, andar pelada ou cochilar durante o dia. Mas, por conta da depressão, é também um momento onde estar só com meus pensamentos não é uma coisa fácil, nem desejável.

Quando meu esposo e eu nos apaixonamos e nos casamos, eu achei que minha saúde mental iria melhorar, afinal de contas, eu tinha tudo o que sempre desejei. Eu queria que fosse tão simples! A verdade é que eu tenho sido menos aberta a aproximação de pessoas em geral, inclusive família. O que me traz a hoje: zero amigos, e tentando desesperadamente me conectar com minha família. Anos atrás eu nunca pensei que falta de amizades poderia ser um problema pra mim. Eu acreditava que tinha vários amigos. Quando na verdade, eu colecionava conhecidos, e era a única pessoa amiga da maior parte das relações que mantinha.

É difícil pra mim perceber o quanto necessito de interações sociais pra me sentir bem. Racionalmente, ao menos pra mim, o convívio com o Edson já deveria cobrir isso. E pra ele, também um introvertido, já é o suficiente. Mas pra mim não. Eu choro pela deterioração de minhas habilidades sociais. Pelo fato de ter brigado com meu único amigo, e de não conseguir fazer novas amizades. A verdade é que eu não quero me dar ao trabalho de conhecer novas pessoas, por medo de me decepcionar com elas, ou pior, de não as cativar. Eu ponho muito peso no significado da palavra amizade. Eu idealizo o que deve ser uma amizade perfeita, pois já tive muitas decepções! Tendo dito isso, sei que decepcionei também.

Tenho que lembrar sempre que todo mundo merece ser feliz, ser apreciado e amado. Que todo mundo tem o direito de encontrar pessoas que queiram compartilhar sua vida, que se sintam a vontade com alguém, que saibam que pode contar com aquela pessoa, que se sinta ouvido e entendido, tenha alguém pra compartilhar as coisas que o deixa feliz, e pra ouví-lo quando tudo vai mal também, alguém que fique feliz em ser seu amigo. Então, se todo mundo tem esse direito, eu também tenho.

Bem, o fato é que ficar sozinho encarando paredes, não é exatamente o que desejo pra ninguém, muito menos pra mim. A solidão precisa ser uma opção, e não uma situação. E o truque é que isso depende apenas de mim. De eu sair da caverna e ir explorar o mundo lá fora, que está cheio de coisas e pessoas de verdade, e não as sombras que constantemente analiso desenhadas na parede. O negócio é que é mais fácil falar do que fazer, como tudo nessa vida. Vamos torcer pra que eu consiga.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Redes sociais nunca mais?!

Essa publicação foi minha despedida do Facebook no dia 24 de março de 2018.

A quem interessar: Eu não estou usando o Facebook diretamente há um tempo. E recentemente também o Twitter e o Instagram saíram da minha rotina. Fiz isso tanto para me livrar de maus hábitos que havia criado, quanto pelo ambiente tóxico que encontro quando uso às redes sociais. A dicotomia que parece irreversível, alimentada por um mercado criado para nos confundir e desinformar, com o único intuito de se aproveitar da situação e conseguir nos "vender" soluções em forma de o "salvador da pátria".

Talvez não adiante muito vir aqui e pedir bom senso. Afinal estamos vivendo um tempo que as notícias reais, por vezes são ainda mais absurdas do que as notícias inventadas. Mas, por favor, tenham um pouco de atenção e cuidado ao compartilharem notícias que recebem por aqui, e principalmente pelo WhatsApp. Principalmente se o noticiado te deixou indignado ou estupefato. As notícias falsas são criadas justamente para isso. Pois é esse tipo de emoção que nos motiva a passar pra frente, a conversar sobre com os nossos conhecidos. Uma simples pesquisa no Google, uma visita ao site do E-farsas, www.e-farsas.com pode prevenir um comportamento que está prejudicando a humanidade, não só nós brasileiros. E que é tão fácil de ocorrer nesses tempos de internet e imediatismo.

Eu recomendo ainda, para os que não podem, ou não querem se afastar das redes sociais, compartilhem algo que te trouxe alegria ao invés de indignação. Alguma notícia boa que te fez ter esperança de que tudo vai ficar bem. Ou simplesmente algo maravilhoso e simples, que por nos dar como garantido nós não agradecemos. Ou algo extraordinariamente maravilhoso que você descobriu. Eu tenho certeza que há muitas coisas positivas no mundo ao nosso redor.
Nós não precisamos nos tornar alienados achando que tudo está bem no mundo, mas o contrário é ainda mais perigoso. E ao invés de repassar correntes, notícias (falsas ou não), aquela foto que você acha bonita com uma mensagem pronta, que tal apenas dizer "oi, tudo bem?!" para aquele amigo de quem sente falta, pro seu irmão que não vê há um tempo, ou simplesmente pra aquela pessoa legal com quem sempre quis conversar e nunca teve oportunidade. O melhor de tudo é que você pode fazer isso na vida real também. E que tal perguntar isso a si mesmo?! Você está bem?!

Com isso eu venho dizer que o Facebook não tem lugar pra mim. A vida online está complicada demais, e eu resolvi tirar um tempo pra focar em mim mesma. Eu aconselho o mesmo pra todos que desejarem um ano mais tranquilo. Aos demais, saiam de suas bolhas. E nem aconselho ouvir o outro lado, pois só há extremos em toda parte. Assistam aos vlogs do Maurício Ricardo do site www.charges.com.br (e agora canal do YouTube), ele também tem página aqui no Facebook. E aconselho fortemente que ouçam podcasts. Os meus preferidos são o NBW que fala sobre política e sociedade, tanto no nível nacional, quanto internacional. E o maravilhoso podcast Mamilos que trata de assuntos polêmicos com imparcialidade e empatia. Tenham um ótimo fim de semana, e um bom ano, na medida do possível. Cuidem de si mesmos!

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Para deletar para sempre sua conta do Facebook não é tão simples, ao excluir normalmente na página de configurações, você só coloca sua conta em suspensão, e pode voltar a ela a qualquer momento, é só logar normalmente. Se você, como eu, tem interesse em deletar de vez sua conta do Facebook, precisa usar esse link facebook.com/help/delete_account, se certifiquem antes, se assim desejarem, de salvar todas as suas publicações na rede social. Isso pode ser feito em configurações gerais da conta, clicando no link no fim da página que diz "baixe uma cópia de seus dados do Facebook". Bem, depois de feito o backup, e deletado sua conta, você ainda terá 14 dias para mudar de ideia. Se você quer entender melhor como fazer isso veja esse artigo do Techtudo http://www.techtudo.com.br/dicas-e-tutoriais/noticia/2015/03/como-excluir-seu-facebook-e-encerrar-de-vez-com-sua-conta.html.
Se você quer motivos para fazer isso ouça os podcasts:

http://www.b9.com.br/89010/mamilos-141-quem-quer-privacidade/
http://www.b9.com.br/88463/mamilos-139-fake-news/
http://podcastnbw.com/archives/1079

Inclusive recomendo ouvir sempre esses dois podcasts, porque vale muito a pena.
Eu acabei excluindo também o Twitter. Quando comecei a usá-lo ano passado estava apaixonada, tornou-se um vício bem rápido, passei um tempo sem usá-lo (como uma desintoxicação), e ao retornar, notei quão tóxico é o ambiente do Twitter, onde as pessoas falam o que vem na cabeça delas, e atacam uns aos outros sem dó nem piedade.

Restaram então o Instagram, e o Youtube. Confesso que já fui viciada no Instagram também, hoje mal entro. E o que dizer do Youtube? É uma relação complicada de amor e ódio. Pra mim, tem muito potencial, mas é desperdiçado na esmagadora maioria dos casos. Seria muito bom se fosse só uma forma de compartilhar novidades, experiências e conhecimento (entre outras coisas boas), ou mesmo como forma de denúncia, quando necessário. Seria ótimo se fosse justo, se todo mundo pudesse ser remunerado, se pudesse ser um meio de vida, sem necessidade de transformar ninguém em grande youtuber. A desigualdade na sociedade se transferiu e se instalou muito rápido por lá. Mas também admito que é tudo o que eu disse antes, e mais. É uma forma de pessoas que não se encaixavam na sociedade encontrar seu espaço, criando conteúdo (bom ou ruim), e sim ajudou e ajuda muita gente, tanto os que criam conteúdo, como nós que consumimos. Por isso meu amor e ódio por ele.

Eu não usava mídias sociais há um tempo (desde 2012), e voltar a elas ano passado me mostrou que realmente não é meu lugar, mas talvez tenha sido o tempo que eu decidi voltar também, não foi o melhor momento. Nos primeiros dias sem Twitter eu me sentia perdendo. Perdendo o contato com as pessoas legais com quem interagia por lá. Perdendo as últimas notícias (relevantes ou não) que estão acontecendo no Brasil e no mundo... Mas tudo isso foi passando. Do Facebook, que já não era tão fanática, como eu preferia não ver atualizações de ninguém, ou quase ninguém, só sinto falta mesmo dos Grupos de Star Trek e coisas das quais gostava. Claro, além de pessoas do meu passado com quem perdi o convívio, mas que me reencontraram por lá.

Quanto ao Instagram, confesso que se tivesse um meio eficiente de fazer backup como o Facebook e o Twitter, eu já teria deletado. Mas no caso, eu também não iria querer perder o contato de algumas pessoas que sigo por lá, já até fiz alguns vínculos. E o Youtube é aquela coisa: cansada dos criadores que estão mais preocupados em agradar do que fazer o que gostam, afinal números significa retorno financeiro. Mas, de forma alguma os culpo por isso, afinal como dizem, todo mundo tem boleto pra pagar, não é mesmo? Mas, isso faz com que a minha tentativa de diminuir meu consumo diário de vídeos no Youtube seja limitado aos poucos canais que realmente me cativaram, de pessoas que eu sei que o fazem com paixão.

Quanto a mais problemática das mídias sociais ultimamente, será que a gente pode chamar de mídia social? Bem, o Whatsapp, não é um problema grande pra mim, pois não o uso como mídia social, não participo de grupos, nem mesmo de família! É só uma forma de me comunicar com as pessoas, quando eu preciso, ou elas precisam falar comigo. Infelizmente isso alimenta minha ansiedade as vezes. Já pensei em deletar do meu aparelho? Já! Mas não fiz porque eu não gosto de falar ao telefone, e essa é a forma principal de comunicação aqui em casa.

Como por algum tempo as redes sociais foram um jeito seguro de emular interações sociais pra mim. Perder tudo isso (ou quase) bateu forte em mim, e eu tive sérias quedas com relação a minha saúde mental. Mas estou tentando voltar aos trilhos fazendo o que deveria ter feito há muito tempo. Estou tentando interagir com as pessoas que amo no mundo real. E eu vi um grande avanço pra mim.
 Espero continuar assim. E esse blog é o meu jeito de não perder o hábito de escrever, escrever e escrever, como faço no meio falado, onde não paro a boca um segundo (sinto muito mesmo, pessoas que interagem comigo no mundo real). A diferença é que aqui ninguém é obrigado a me ouvir (ler). Mas, caso alguém leia isso, deixa um oi pra mim. Significaria o mundo pra essa aqui. E tiraria essa paranóia de que o pequeno número de leitores do meu blog, na verdade são bots do Google.

Por fim, aos que escolherem por continuar a usar as redes sociais, desejo empatia e amor. ;*

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Pequeno disclaimer de 18 de junho de 2018: eu voltei a usar o Facebook. Nada demais, só queria manter o contato com algumas pessoas, e esse é um bom meio para isso. Ah, e também nunca cheguei a deletar o Instagram. Mas do Twitter, realmente tô fora. Ao menos até agora.


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Conversa de garotas

Precisamos falar sério sobre algo: sexo! Hoje li um artigo do Huffpost Brasil que fala sobre interações sexuais onde as mulheres não se sentiram confortáveis, expressaram de forma "educada" para o parceiro, e mesmo assim tiveram que passar por momentos não desejados, desagradáveis e/ou constrangedores. Essa discussão é importante, principalmente dentro do movimento #MeToo, que denuncia casos de assédio sexual, ou mesmo estupro, desde o ano passado.

Tudo começou em Hollywood com a repugnação ao comportamento predatório e bullier de um grande produtor cinematográfico, Harvey Weinstein. Apesar do movimento #MeToo existir desde 2006, ele cresceu e se tornou viral no final de 2017, com o uso da hashtag pela atriz Alyssa Milano, em solidariedade a sua amiga, Rose McGowan, primeira a denunciar Weinstein. O que se seguiu foi, ao menos nos EUA, uma onda de denúncias de outros casos envolvendo, em sua maioria, homens que abusavam de algum poder que exerciam sobre suas vítimas, geralmente no meio profissional, para levá-las a praticar sexo com eles, ou receber algum tipo de "favor sexual". Falei de "em sua maioria  homens", porque também houve denúncia contra uma mulher, (até onde sei). A cantora pop Melanie Martinez, que foi denunciada por uma amiga.  

E não só mulheres se juntaram ao movimento, como homens, nesse caso assediados por outros homens. O primeiro do qual recordo foi o ator Terry Crews (o eterno pai do Chris), que alegou ser pego pelas genitálias por um agente de Hollywood durante uma festa onde estava ao lado de sua esposa. Outra denúncia vinda de um homem, foi a do ator da nova série Star Trek Discovery, Anthony Rapp, que revelou ter sido assediado pelo ator Kevin Spacey numa festa em sua casa, quando tinha apenas 14 anos. O que levou Kevin Spacey a se "desculpar" saindo do armário. Uma mancada épica, e um desserviço para a comunidade LGBT.

Um debate extremamente importante se iniciou com todas essas denúncias, e um movimento de mulheres não mais se calando diante da violência verbal ou física e de cunho sexual, tão bem estabelecida na nossa sociedade, que foi usada como justificativa por alguns dos denunciados. Que alegam, ao se defenderem, que cresceram entendendo que esse tipo de comportamento é "normal". Agora talvez caminhamos para um mundo onde, não só se condena esse tipo de comportamento, mas não mais se aceita. Um momento em que todos devemos debater sobre nossas interações sexuais. Dentro desse contexto, onde mulheres denunciam violência sexual, não parece certo dar voz a casos em que, aparentemente o que aconteceu foi consensual. 

Muito se fala sobre consensualidade, também. Como qualquer assunto tabu, sexo não é diferente. Está cercado de nebulosidade e nuances. Ainda fazemos joguinhos, onde as diferenças de papel entre os gêneros (homem e mulher) é muito grande, e distante do ideal num mundo mais igualitário. As mulheres ainda não conseguem se expressar sexualmente sem serem reprimidas de alguma forma por isso; não conseguem dizer não, de forma clara e concisa para um homem, por não querer parecer rude, e por um instinto de não desagradar. E, por consequência, muitos homens acabam usando essa ambiguidade como desculpa para continuarem encontros sexuais em que as mulheres se mostram desconfortáveis. Afinal, eles não sabem interpretar os sinais que recebem delas. Sejam físicos ou verbais. Ah, me poupe! Nós convivemos há muito tempo em sociedade para não entender frases como "está ficando tarde..." e coisas do tipo.

Aqui no Brasil, em 2015 tivemos um movimento bem interessante sobre assédio: #primeiroassédio, campanha iniciada pela Juliana de Faria do Think Olga, após polêmicas envolvendo uma participante de 12 anos do programa Master Chef Júnior. Por aqui, sofreu um impulso pela temática da redação do Enem daquele ano "A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". Mulheres e garotas, usaram a hashtag nas redes sociais para comunicar sobre a primeira vez que sofreram alguma violência verbal ou física, sexual. Um ato de denúncia e de apoio feminino. Infelizmente, por aqui, o movimento logo esfriou. E tantas discussões interessantes que haviam sido criadas, logo desvaneceram. Uma pena!

Ao meu ver, devemos aproveitar esse momento para nos educarmos sobre o que é, ou não, saudável e aceitável, sexualmente falando. Não há uma só mulher que em algum momento da vida, não tenha sido assediada, ao menos verbalmente. E sim, isso inclui frases de "pedreiro" quando se passa na rua. E não, não é, e nem deve ser aceitável, e muito menos desejável. O assédio começa muito cedo nas vidas delas, infelizmente. E muitas mulheres desafortunadas, sofreram, ou sofrem constantemente, algum tipo de violência sexual. Afinal, vivemos num país onde, segundo dados de 2014, um estupro acontece a cada 11 minutos. Ontem mesmo fiquei sabendo de uma música que a letra normaliza o ato sexual com mulheres bêbadas, de forma esdrúxula. Sendo vangloriada como possível hit do verão. Pra quem não sabe, isso constitui crime de estupro de vulnerável. Posso fazer uma lista aqui só com músicas que fizeram sucesso, com letras bastante problemáticas sobre sexo e mulher.


Há muito o que se falar sobre o assunto. E espero que a discussão chegue por aqui de forma mais concisa, e em todas as camadas sociais, não só da elite que lê jornal e sabe inglês. Nossas meninas precisam se descobrir pessoas. Saber que tem todo direito sob seu próprio corpo, inclusive o direito de falar não no meio de um encontro. Se uma das partes não está confortável com a situação, nada mais justo que se expressar. Não precisa ter medo de ser mal educada, ou mesmo rude. Se a pessoa com quem você está realmente valer a pena, ela nunca irá questionar sua indisposição. No máximo você não terá um segundo encontro ruim.

> http://www.huffpostbrasil.com/2018/01/17/sobre-aziz-ansari-e-sexo-consentido-que-e-violento-mesmo-que-nao-seja-criminoso_a_23336027/?ncid=fcbklnkbrhpmg00000004

> http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2017/09/17/internas_polbraeco,626604/brasil-registra-um-estupro-a-cada-11-minutos.shtml

> http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2017/05/dia-nacional-contra-abuso-sexual-de-criancas-e-jovens-e-celebrado-nesta-quinta-18 

> http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2015/11/1700865-criadora-de-campanha-sobre-assedio-considera-tema-do-enem-uma-vitoria.shtml

> http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2018/01/16/internas_viver,738395/surubinha-de-leve.shtml

> http://direito.folha.uol.com.br/blog/fazer-sexo-com-algum-bbado-estupro

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Desejo de ano novo

É fim de ano, e apesar de considerar isso de pouca importância, já que pra mim 'ano' é só uma forma de medir o tempo, eu sei da importância dessa época para outras pessoas. E sei também que o ano de 2018 será um ano diferente. Teremos eleições presidenciais ano que vem. E por enquanto não dá nem pra imaginar o quanto isso irá nos impactar, tanto nas mídias sociais, quanto fora delas, no mundo real, onde temos que falar as coisas na cara uns dos outros. Então, eu senti que eu deveria vir aqui, não desejar feliz ano novo ou qualquer mensagem genérica de fim de ano. Eu vim aqui falar sobre uma coisa muito importante, e que carrega sim um poder de mudança: empatia. Empatia, pode ser uma palavra nova na sua vida, mas talvez o conceito você já conheça. Ao menos espero que sim. Se não, aqui vai um conceito de dicionário a respeito:

- capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc.
  • psic processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro.
  • soc forma de cognição do eu social mediante três aptidões: para se ver do ponto de vista de outrem, para ver os outros do ponto de vista de outrem ou para ver os outros do ponto de vista deles mesmos
      
    Bem, basicamente é se pôr no lugar do outro para que, além de respeitá-lo, eu possa entendê-lo.
    Num ano em que as mídias sociais serão usadas avidamente pelas campanhas eleitoreiras, é possível que o ambiente se torne ainda mais tóxico, e por tanto, nós temos o dever de perceber qualquer tentativa de manipulação, como também de não nos comportarmos de forma nociva, on-line ou offline. Você não irá mudar a opinião de ninguém gritando com ela (ou o correspondente on-line, que é digitando em caixa alta), sendo ofensivo, xingando, se passando por intelectualmente superior, ou moralmente superior, sendo hipócrita, ou culpando o outro, agredindo fisicamente... Tudo isso só geraria mais desrespeito, ódio e violência. Ouça a pessoa, tente entender de onde vem aquela opinião. Qual a história dela. E se lhe for permitido, seja ouvido também. Mas nunca de forma agressiva. Mesmo que tenham sido agressivo com você. É um esforço, mas é uma escolha. Você pode também escolher não se envolver em discussões políticas e/ou ideológicas, e tudo bem. Mas tudo sempre com muito respeito. Porque, tenha certeza que se respeito é o que você quer, respeito tem que dar. Aquela frase religiosa de que "é dando que se recebe" não poderia estar mais correta em se tratando de respeito.
    Então, em 2018 eu desejo a todos vocês: empatia! E para os que pensam que já tem o suficiente, eu desejo ainda mais. Que ano que vem a gente consiga se colocar mais na pele do outro, ver os problemas com outros olhos, entender o próximo, e amar e respeitar muito mais.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Aos irmãos

Nesse fim de ano eu estou bastante reflexiva sobre meu comportamento com o mundo. Não porque é fim de ano, pra mim ano é só unidade de medida de tempo, nada demais... Mas porque tenho buscado melhorar. Melhorar em minha relação comigo mesma, e com as pessoas ao meu redor. Querendo mudar meu comportamento de "não sei lidar com isso, logo fujo" para "o que posso fazer pra acrescentar?!". Talvez minha natureza individual e solitária esteja pronta para se expandir. Ninguém consegue fazer algo sozinho, não é verdade? Mas eu dei um jeito de me isolar a ponto de, agora, não conseguir alcançar facilmente as pessoas. Talvez por conta de minha arrogância e/ou chatice as pessoas não sejam tão abertas a uma (re)aproximação.

Eu sou um ser em processo de reforma e construção. Gradualmente checando por falhas e tentando corrigí-las. Os males já feitos, fora do alcance de reparação, eu analiso e me esforço para que não haja bis. E ainda na busca de redenção, o que mais tenho buscado é a humildade de perceber quando isso aconteceu ou acontece, e a sabedoria para me posicionar de forma a melhorar a possível situação que criei. E também para notar quando devo agradecer, e eu só tenho a agradecer a uma porção de gente. Mas hoje em especial, resolvi dedicar esse texto aos meus irmãos: Wendel, Mateus e Vitória.

Wendel e eu tivemos muito mais tempo juntos. Partilhamos a infância, muitas brincadeiras e muitas brigas, mas também muitas conversas. Quando precisava de ajuda ou apenas de ouvidos, nós estávamos lá pra servir um ao outro. Em algum momento isso deixou de ser verdade, e a gente não mais busca o outro para confidências, o que eu lamento. Queria ter feito mais parte de sua vida até agora. Mas, ainda temos chance daqui pra frente. Você será pai em breve, meu primeiro sobrinho. E eu estou aqui para ouví-lo e tentar ajudá-lo no que puder.

Mateus, eu cuidei quando bebezinho. Cantávamos juntos, brincávamos, enfim... Até que ele cresceu um pouquinho e o Wendel virou sua referência. Eu sentia tanto ciúmes! Mas na sua pré-adolescência nós éramos os melhores amigos. Você é mais novo que eu, é verdade. Mas sempre admirei sua atitude e compromisso com o que se dispunha a fazer. Eu queria tê-lo ajudado quando mãe se foi. Eu não tinha maturidade pra alcançar você naquela época, talvez ainda não tenha. E eu sinto muito, muito mesmo por termos perdido a amizade que tínhamos. Ainda espero por uma chance de aproximação contigo.

Vitória, você era a irmã mais desejada antes de nascer. Eu sempre quis ter uma irmãzinha, e quando você nasceu foi um sonho realizado. Você foi meu grude até eu sair de casa. Infelizmente eu saí cedo, e não tive a chance de vê-la crescer. Talvez você nem sinta que sou sua irmã por conta disso. Eu também não soube lidar com você quando voltei pra casa. E as minhas tentativas de aproximação tiveram o efeito oposto, e eu te afastei e te enchi com cobranças desnecessárias. Não consegui atender suas necessidades. Eu fui egoísta e incompreensível. Talvez as nossas diferenças fossem barreiras muito grandes pra mim. Eu não sabia o que fazer, e como fazer. E então tomei as piores decisões com você. Espero que um dia você possa entender isso e me perdoar. Até lá, espero que me dê a chance de me redimir. Quero tá bem pertinho de você. E ser seu porto quando precisar.

Wendel, Mateus e Vitória, nós tivemos uma mulher muito especial como mãe. Infelizmente, vocês tiveram com ela, muito menos tempo que eu. Eu sei que nós não somos as pessoas "mais família" de que se tem notícia, e acabamos vivendo nos nossos próprios mundos. É algo peculiar nosso mesmo. Mas eu quero que saibam que eu os amo. Vocês e vó são a única família que tenho. E é a melhor que eu poderia ter. Se mãe estivesse viva hoje, ela teria orgulho de todos nós. E nós devemos honrar sua memória sendo o melhor que pudermos ser. Vivendo a nossa vida, de uma forma que ela não teve a chance de viver. Nós devemos isso a ela, e a nós mesmos. Obrigada por todos os momentos que partilhamos juntos até hoje. Guardo com carinho tudo que vivemos enquanto crescíamos. E espero que me deem o privilégio de fazer parte da vida de vocês daqui pra frente também. Eu estarei sempre ao alcance, lembrem-se.
É fim de ano, e apesar de pra mim "ano" ser apenas uma forma de contar a passagem do tempo, eu entendo a expectativa que as pessoas empregam no ano que vem. Este ano em que ainda vive,os foi um ano duro, politicamente e consequentemente, financeiramente. E ninguém sofre mais com isso do que os pobres e a classe média, ou seja, a maior parte de nós. Eu queria ter uma mensagem de esperança, e dizer que ano que vem tudo será diferente e maravilhoso. mas eu não estaria sendo honesta. Ano que vem